RBA: O MPB4 LEMBRA OS TEMPOS DA ‘BARRA PESADA’ DA CENSURA

Número 149,
MÚSICA BRASILEIRA
Conjunto de CDs traz shows do grupo proibidos pela censura nos anos 1970
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 12/02/2019.
MPB4.COM.BR/DIVULGAÇÃO

Sem dois de seus fundadores originais, já falecidos, o MPB4 continua ativo e atuante, como nos tempos em que seus shows eram censurados pela ditadura civil-militar

São Paulo – A criação do MPB4 coincidiu com o golpe de 1964: um ano antes, eles formavam o Quarteto do CPC, o Centro Popular de Cultura, vinculado à União Nacional dos Estudantes (UNE), que teve vida breve. Estava chegando a “barra pesada”, expressão que dá nome a um conjunto de cinco CDs lançado agora pelo selo Discobertas, com shows do grupo censurados entre 1973 e 1976. Tempos em que os artistas tinham de se “apresentar” primeiro aos censores, e só depois ao público. Se pudessem.

Integrante da formação original, quando o grupo ainda era um trio, Aquiles Rique Reis lembra de uma dessas exibições, feitas para liberação do espetáculo. “Era terrível. Mas a gente fazia isso da pior maneira possível. Cantava mais rápido, falava os textos sem a menor emoção… Para eles, devia ser uma tortura”, recorda. E os artistas conseguiam ser convincentes. Tanto que, certa vez, depois de ver o ensaio, a censora dirigiu-se ao produtor do espetáculo, preocupada: “Mas eles vão estrear amanhã? Não estão bem ensaiados”. 

O pessoal da divisão de censura do governo também tinha lugares reservados nas apresentações, conta Aquiles. “A gente sabia onde eles sentavam.” Assentos nas primeiras fileiras. Nos dias de censor na plateia, “a gente amenizava”, diz o vocalista.

Apesar de certo humor para lembrar desses histórias, Aquiles afirma que as lembranças daqueles tempos “são as piores possíveis”, mas havia algum alento. “Eram momentos em que a gente estava empenhado em cantar aquilo que sempre cantou. A gente mais perdeu do que ganhou. Mas cada vitória era singular, no caminho da redemocratização.” 

Em 1973, o grupo estreou no Teatro Fonte da Saudade, no Rio, o show MPB4 na República do Peru, com roteiro escrito pelo quarteto em parceria com Chico Buarque e Antonio Pedro e vetado depois de sete apresentações, por “inobservância da programação aprovada”. Foi gravado ao vivo em outubro daquele ano. Ficou apenas o repertório musical. Aquiles observa que muitas vezes os shows eram “proibidos na íntegra não só pela música, mas pela encenação que a gente fazia, isso acontecia muito”. 

Foi o que houve em 1976, quando MPB4 no País das Maravilhas, com texto de Carlos Eduardo Novaes, foi substituído por Jornal Depois de Amanhã, dirigido por Antônio Pedro e escrito por Aldir Blanc.

Antes, em 1975, o MPB4 faria o show Ugunga, República Monarquista do Quarto Mundo, também dirigido por Antonio Pedro e com roteiro de Chico Buarque juntamente com o grupo, e colaboração de Ruy Guerra. Haveria uma “homenagem póstuma” a Julinho da Adelaide, pseudônimo usado por Chico para driblar a censura e “autor” do sucesso Acorda Amor. A censura só aprovou o título República de Ugunga. Foi gravado em 20 de junho, e a apresentação durou cinco meses. O show ia continuar, em teatro maior, mas foi proibido em todo o território nacional.

As gravações têm boa qualidade técnica. Aquiles só lamenta que, no processo de remasterização comandado por Marcelo Froes, não foi possível recuperar todas as falas. “Às vezes a gente falava fora do microfone.”

Nos encartes que acompanham os CDs, conta-se que Ruy (formado em Direito) e Aquiles foram a Brasília conversar com o chefe da Censura Federal. O espetáculo de duas horas perdeu as falas e transformou-se em um “recital” sucinto. “Só que nenhum censor quis assinar o parecer que, finalmente aprovado, permitiria a estreia ‘legal’ do show no Teatro Glória em 13 de janeiro de 1976. Os rapazes bolaram então falas bastante formais para apresentar as canções, mas sempre fazendo citações do refrão de Passaredo para avisar que ‘o homem vem aí’. E assim o ‘Recital’ teve vida breve e o grupo começou a pensar em algo novo.”

Mas alguma coisa acabava passando. “Por sorte nossa, os censores eram muito burros e às vezes não percebiam”, lembra Aquiles. Assim como não era raro o público identificar, em alguma canção, uma mensagem subliminar que o próprio grupo não havia pensado. 

Não foi o caso de uma das músicas mais emblemáticas daquele período, Pesadelo, parceria de Maurício Tapajós (melodia) e Paulo César Pinheiro (letra). Foi lançada em 1972, no LP Cicatrizes. Um disco antológico, com interpretações de O Navegante (Sidney Miller), San Vicente (Milton Nascimento/Fernando Brant), Partido Alto (Chico Buarque) e Ilu Ayê Terra da Vida (samba-enredo da Portela naquele ano), entre outras.

 

Você corta um verso, 
eu escrevo outro
Você me prende vivo, 
eu escapo morto

 

“Esse é o grande mistério”, comenta Aquiles. “Por que e como ela nunca foi censurada”, completa. Os versos de Paulo César Pinheiro eram explícitos. “Quase uma canção de amor à censura”, brinca o integrante do MPB4. O truque do autor, que acabou dando certo, foi mandar várias músicas ao mesmo tempo, para tentar liberar Pesadelo

O fato é que a censura “cochilou” nesse caso, assim como havia acontecido com Apesar de Você, a única composição que Chico Buarque admite ter feito contra a ditadura, uma “canção de protesto”, como se dizia. A obra, de 1970, também foi liberada e fez enorme sucesso. Por pouco tempo, lembra Aquiles. “Depois proibiram e mandaram quebrar os discos.”

Existe uma “barra pesada” também nos tempos atuais, mas o cantor do MPB4 faz ressalva à comparação, considerando que o país está em uma democracia. “Era um censura aberta, explícita (naquela época). Hoje, eles foram eleitos. Não é uma ditadura”, afirma. Do atual governo, Aquiles lamenta “medidas de extrema-direita que, para mim, são inconcebíveis, ministros sem o menor jeito, sem a menor competência”.

MPB4.COM.BR/DIVULGAÇÃOMPB4
A formação original do quarteto, com Magro e Ruy (respectivamente o primeiro e o segundo agachados)

Mas é um momento “difícil de engolir”, completa o artista, sem deixar de se lamentar pela ameaça a tantas conquistas. “A gente vai ter de aprender como se contrapor. Eu, que dentro do MPB4, tanto lutei pela redemocratização, estou vendo tudo escorrer pelos dedos, indo para o ralo. São coisas de extrema estupidez que a gente tem de aguentar.”

Aquiles também vê com preocupação o acirramento dos ânimos no país, em parte alimentado pelo que ele chama de “espírito belicoso” do atual presidente e também certa decepção de parte da esquerda principalmente com o governo Dilma. “Fica uma coisa em que sobressai a violência, isso torna o momento muito perigoso sob um certo aspecto.”

Ele também lembra da liberação parcial das armas de fogo, uma das primeiras medidas do governo, e teme que isso aconteça também com o porte. “Uma pequena batidinha de trânsito, um puxa uma arma, o outro também, e salve-se quem puder.” Para Aquiles, o presidente da República parece ainda estar em campanha.

Da formação original, ficaram dois integrantes: Aquiles e Miltinho. Em 2004, Ruy Farias saiu, após desentendimentos internos, e foi substituído por Dalmo Medeiros, ex-componente do grupo vocal Céu da Boca. Em 2012, o quarteto perdeu Magro Waghabi, que morreu aos 68 anos. Em seu ligar, entrou Paulo Malaguti, também do Céu da Boca. Ruy morreu no ano passado, aos 80. O grupo segue na estrada, fazendo shows. Em 2016, lançaram pelo selo Sesc o CD 50 Anos – MPB4: o sonho, a vida, a roda viva!.

Roda Viva, canção de Chico Buarque, ficou em terceiro lugar no festival da Record em 1967, interpretada pelo quarteto e pelo autor. A vencedora foi Ponteio (Edu Lobo/Capinan), com Edu e Marília Medalha.

O resgate do MPB4 em relação à censura já vem sendo ensaiado há algum tempo. O grupo já apresentou, por exemplo, o espetáculo Você corta um versoeu escrevo outro, contando um pouco da história dos vetos impostos à criação musical no Brasil – que, como lembra Aquiles, não se restringe ao conteúdo político, mas também ao comportamento, caso de Odair José, que também enfrentou a caneta da proibição. Em mais de cinco décadas, eles continuam cantando o que querem, acima das proibições.

Ouça Pesadelo (Maurício Tapajós/Paulo César Pinheiro), com o MPB4:

 

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