PRODUÇÃO AFINSOPHIA

Dois seguimentos enunciativos determinam, basicamente, o conceito de pensamento mágico. Um, o seguimento antropológico. Dois, o seguimento psicanalítico. O primeiro, reporta o enunciado para a sociedade primitiva como raiz das religiões. Diante das manifestações da natureza, que não sabia como controlá-la ou explicá-la, o homem chamado de primitivo recorreu à sua imaginação atribuindo à essas manifestações poderes dirigidos contra ele que para se proteger teve que nomeá-los como corpo antropomórfico. Ou seja, corpo possuidor de alma-humana. Alma, ora boa, ora má. É o que se observa em suas expressões totêmica e tabu.

Atribuindo aos entes da natureza alma, ele poderia através de sua imaginação dominá-los e se proteger, já que assim aplacava seu medo. O medo, a raiz fundadora das religiões. E no caso do chamado homem primitivo, além da raiz religiosa, a raiz da vida moral e social. Desta forma, pelo pensamento mágico, a capacidade de mudar o mundo natural ao dominá-lo, ele podia se proteger contra os perigos reais e imaginários. Na verdade, mais imaginários. Uma tempestade que ameaça e pelo pensamento mágico se torna inofensiva, uma planta que cura ou mata, um animal que protege ou persegue, nada mais são que soluções mágicas, mas, em sua situação, funcionava a contento.

Na psicanálise, o pensamento magico é um atributo da infância, onde a criança, dominada por um eu-fraco, e longe das operações mentais lógicas, diante de uma ameaça ou dor física, atribui ao objeto ameaçador, também alma, anima. Porém, a criança não resolve sua condição de temor a partir de si mesma. Ela recorre aos personagens que para ela são representantes de poderes e coragens: os pais. Principalmente, ao pai que tanto para o menino e a manina representa proteção contra os perigos do mundo que seu pensamento mágico atribui. O pai, o patriarca. Um exemplo é demonstrado quando ela cai em uma calçada, ou se bate em um móvel, ela pede ao adulto que castigue os objetos que para ela foram os causadores de sua dor.

O pensamento mágico na criança também se movimenta além de seus medos. Ele também se desloca, de forma lúdica, para seus atos de brincar, porque brincar é também magicar o mundo. É poder fazer do mundo magicamente o que se pode. Em uma linguagem hilária, é fazer do mundo ‘gato e sapato’. Como afirmam os psicanalistas da infância, brincando a criança pode verbalizar suas angustias projetando nos brinquedos seus sentimentos. Sejam eles bons ou maus. 

Tanto no seguimento antropológico como no seguimento psicanalítico, existe o mesmo elemento fundador do pensamento mágico: a identificação. Embora o homem chamado de primitivo e a criança atribuam ao exterior o elemento-perseguidor, não existe o outro. Só existe eles mesmos em relação com eles mesmos. Só depois, quando em um estágio-científico, o homem chamado primitivo consegue encontrar o outro fora. E a criança, por sua vez, quando ultrapassa seu estágio edipiano. O que para Freud, a maioria não ultrapassa. Continua dependente dos entes imaginários derivados de um complexo de Édipo profundamente castrador. O que lhe impede de perceber e conceber o mundo através do princípio de realidade. 

No momento atual, uma parte da sociedade brasileira, se expressa impulsionada pelo pensamento mágico. Acredita que de seu querer mágico o Brasil pode se transformar no que ela magicamente deseja. O tal governo Bolsonaro, é o exemplo maior da expressão do pensamento mágico confundido com a objetividade. Durante esses poucos dias, após a dita posse, ele tentou, por sua vontade, impor mudanças na realidade brasileira. Resultado: o princípio de realidade o fez confrontar o Brasil real com seu pensamento mágico fazendo com que a objetividade-social prevalecesse sobre a mágica-pessoal. 

Um exemplo fácil de entender a predominância  do pensamento mágico na era Bolsonaro, se reflete nas fake news que são usadas para promover suas opiniões divorciadas da realidade. Não precisa ser psicanalista para saber que fake news é mentira. E como mentira é fruto da imaginação supersticiosa. Logo, não tem qualquer importância e relação com a verdade-social. Democraticamente é um logro. E também, não precisa ser Sartre, para se saber que aquele que mente constrói, para si, uma consciência malograda, já que essa consciência não é produto de uma intuição fenomenológica cujo ser se encontra fora no outro como projeto existencial concreto. E o pior, para o que mente, é que ele não pode existir sendo ele mesmo, porque carrega outro: o ente de sua mentira.

Como diria o pedagogo-artista Abdiel Moreno, resulta daí que com a exacerbação do pensamento mágico, embora se tenha chegado na pós-modernidade tele-tecnológica-virtual, os conteúdos dos discursos continuam presos no seguimento primitivo e no seguimento infantilizado, ambos como lógica fantasmagórica do poder. E sabe-de que não há poder democrático abstraído do real.     

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