PRODUÇÃO AFINSOPHIA.

Como ocorre todo fim de ano, a Associação Filosofia Itinerante (AFIN), através de seu site Afinsophia, localizada em Manaus de onde movimenta suas enunciações como produção da inteligência coletiva, entrevista uma mãe ou um pai de santo para conhecer quais suas previsões para o ano entrante. E para o gáudio de seus acessantes, exitem poucos erros.

Este ano resolvemos entrevistar a grandiosa e gloriosa Mãe Celeste que já atua há mais de quatro décadas nas regiões além celestiais atendendo os pedidos de seus aficionados que obtêm bons elementos espirituais para os mesmos. Sua maior ação é em direção ao bem. Sabendo que a espiritualidade compõe com a inteligência como produtora do bem comum, Mãe Celeste é graduada em Filosofia, Antropologia, Estética, Religiões Afrosóficas e estudiosa da Esquizoanálise criada pelos filósofos franceses Deleuze e Guattari. Além, de ser original seguidora do filósofo holandês Spinoza. Com um grau incomum de conhecimento, Mãe Celeste acredita, junto com o filósofo Nietzsche, que os saberes devem ser distribuídos em forma de novas forma de sentir, ver, ouvir e pensar. Já que a Vontade de Potência é sempre criadora. Essa a razão de seu engajamento social como militante das causas populares.

Infelizmente, ao chegarmos em sua casa, ela se encontrava de saída rumo ao porto, onde iria pegar o barco que lhe levaria até o Encontro da Águas, onde iria realizar suas oferendas de fim de ano. Porém, seu engajamento e sua boa vontade, permitiram a produção de uma breve entrevista com os membros da AFIN.

ASSOCIAÇÃO FILOSOFIA ITINERANTE (AFIN) – Mãe Celeste, para nós é profundamente gratificantes estarmos aqui com a senhora na proteção dos Orixás e Iemanjá. Para nós é uma singela bênção que nos deixa em posição transcendental: além do mundo concebido. Principalmente este perverso mundo burguês. Pois bem, a nossa pergunta inicial não poderia ser outra: Como fica Lula neste ano de 2019?

MÃE CELESTE(MC) (Alegre) – Livre.

AFIN (Surpresos) -Livre!?

MC – Quer dizer: ele já está livre, porque ele é a própria liberdade! Lula é a liberdade que os fariseus têm o maior pavor.

AFIN – Sim, nós sabemos disso. Na verdade, a maioria do povo brasileiro sabe. Mas o que o povo quer saber é se ele vai ser libertado por essa justiça que o persegue?

MC (Sorrindo) – Não.

AFIN (Preocupados) – Não!?

MC – Não por esses agentes do judiciário que lhe perseguem, mas por outros que são corpus da democracia-real. Existe na justiça brasileira juízes, juízas, ministros, promotores, procuradores, agentes do judiciário que respeitam a Constituição. Têm dela o entendimento político-constitucional realístico. Totalmente diferente desses que são agentes da democracia-supersticiosa. A democracia que não não pode ser percebida nem analisada clara e distintamente por ser produto das ideias confusas, a imaginação-logradora que origina, alimenta e conserva o medo. E onde predomina o medo não há ação-racional e não havendo ação-racional não há democracia. Só é democrata quem atingiu a dimensão da razão. Estes que perseguem o Lula, que é a liberdade como imanência e transcendência democrática, estão imobilizados pelo medo. O medo de uma força maior.

AFIN – Os Estados Unidos!?

MC – Pode ser. Mas, o medo nunca é só um. E nunca se revela no mesmo tempo. Há em homens e mulheres medrosos e medrosas, muito do medo infantil. É por causa desse medo que eles não servem para causas públicas institucionais, porque as instituições surgem para eles como mecanismos de defesa de seus medos. 

AFIN – A senhora que dizer que os ministros corajosos vão libertar o Lula?

MC – Eu não diria ministros corajosos, mas ministros constitucionalistas que sabem que a Justiça de um povo, que vive em Estado de Direito, e que é Soberano, tem que ser exercida apoiada em fatos reais e não supersticiosos. Eles vão realizar apenas o ato para o qual forma promulgados representantes da lei. A sua tarefa constitucional. Esses ministros sabem que estão sofrendo muita pressão e ainda vão sofre depois de seus veredictos, mas são praticante da moral que diz: primeiro o Direito, Direito, depois o direito torto. O direito dos patrões.

AFIN – Mãe Celeste, tem gente que sofre muito porque acredita que o Lula está sofrendo. A senhora que tem esses poderes de perceber o imaterial, o Lula está sofrendo.

MC – Não! 

AFIN  (Surpresos) – Não!?

MC (Zombando) – Qual é, moçada? Vocês estão surpreso, porque disse que o Lula não está sofrendo? Vocês da AFIN deveriam ter certeza absoluta que ele não está sofrendo. Ele sente muito não poder se encontrar com seus familiares, companheiros, em outros lugares, mas ele transcende essa dor. E mais, não é só o fato dele ser resiliente, não se curvar às adversidades, e sempre está disposto à produção ontológica da vida.  É que ele também sabe que seus inimigos, em decorrência de suas formas de estar no mundo emburguesado, querem vê-lo sofrendo. Como se diz na gíria, querem vê-lo pedindo arrego. É a grande satisfação que eles perseguem, mas Lula, com sua beatitude em relação à vida, frusta todos.

AFIN – Quer dizer que nem na festa de Natal ele sofreu e também na entrada do ano novo?

MC – Claro que não. Primeiro que ele sabe que todo dia, dependo da pessoa, é dia de nascer. E sempre se nasce em Cristo quando se tem fé não imobilizada pelo medo criado pela superstição. E que o novo é produzido pela práxis e poiesis dos homens livres. E de quebra. Essa gente que o persegue tem um entendimento supersticioso dessas duas datas,por isso acreditam que Lula sofre muito nesses eventos. E mais do mais, Lula é uma subjetividade-subjetivadora que se move como o devir-mundo. Ele escapa de todos os espaços estriados, como dizem Deleuze e Guattari. E mais do mais do mais, como subjetividade-subjetivadora devir-mundo, ele não morre. Como todos homens e mulheres que também se movimentam como devir-mundo

AFIN – Quer dizer que o movimento Lula Livre tem dois sentidos?

MC – Sim. Um, se refere a libertação dele do cativeiro. Outro, a afirmação de que ele como devir-mundo, é plena liberdade. Lula Livre como liberdade é a potência de agir aumentada como democracia. 

AFIN – Mudando de um sentido para outro muito inverso. E qual é sua previsão para este governo que está entrando?

MC – Essa é a previsão mais fácil de se fazer. Aliás, não é previsão, porque previsão é uma tentativa de entender o futuro. E se possível, prepará-lo para ser um tempo bom. O futuro desse dito governo é passado. Está no ano de 2014 quando redundou no golpe contra a presidenta Dilma Vana Rousseff, eleita com mais de 54 milhões de votos de eleitores-democratas. Não há mudança de subjetividade. É a mesma do que sai, sem sair, já continua nos mesmos anseios do que entra. É um produto do golpe e golpe não tem futuro: o futuro é o presente golpe. 

AFIN – Se entendemos bem, então no momento da posse não há rito de passagem?

MC (Rindo) – Até que enfim vocês dão uma dentro. Claro que não. Segundo a antropologia, o rito de passagem é uma mudança de um estado para outro. A criança deixa de ser criança e passa a ser um jovem-adolescentes. Há uma mudança geral. O adolescente se afasta da criança chegando até a lhe esquecer. E essa passagem só é possível, porque tanto o jovem como povo compreende as mudanças e também participa do rito. Um exemplo: a política econômica é a mesma de Temer: ultraliberal. Economia de mercado dando as regras contra uma política pública. 

AFIN – Triunfo do capitalismo norte-americano?

MC – Claramente, mas com parcelas para outras nações sugadoras das riquezas alheias. 

AFIN – E a violência nazifascista, vai acabar?

MC – Não. Pode diminuir, porque o que eles queriam já conseguiram. Mas é preciso atenção com alguns nazifascistas. O fator psicopatológico deles é diferente: eles sentem que não sublimaram suas impotências com o ganho eleitoral, por isso suas pulsões inconscientes, que os leva a cometerem atos irracionais, continuam impulsionando-os aos atentados. Então, o dito governo, preocupado com seus aliados internacionais, vai ter que tomar uma decisão para resguardar a aparência. O que não vai ser facilmente aceito por esses tipos-paranoicos.  

AFIN – Mas a senhora prevê que esse governo pode cair?

MC – Não.

AFIN – Não!?

MC – Não, porque ele vem se arrastando desde o golpe. Só fica em pé um governo originado como governo democrático-real. 

AFIN – Saindo do nacional para o regional. Quais as previsões para o Amazonas? Mudou o governo. O ex-governador Amazonino Mendes vestiu o pijama, depois de levar uma boa sova-eleitoral, vamos ter boas surpresas? Vai mudar a forma anacrônica de governar?

MC (Gargalhando) – Às vezes parece que vocês não são da AFIN que eu conheço. Não vai mudar nada. O chamado novo governo representa a mesma subjetividade que há mais de trinta anos colocou o estado no primeiro lugar do atraso. Não há novidade alguma. Se percebe uma clara composição reacionária. O que foi eleito, saiu do mesmo nicho que saíram muitos deputados do Amazonas e que foram cabos-eleitorais dos governadores que levaram o estado a ser hexacampeão do atraso: programa de televisão da exploração da indigência. Há anos que falta nessa gente a dimensão política que é o compromisso original do viver em sociedade, e que só é alcançado quando o homem entra na dimensão da humaniora, como diz o filósofo Kant. A comunicação íntima de todos como cumplicidade-empática. O que leva ao viver, viver bem com os outros como forma de perseverar em seu ser-social como diz Spinoza.

AFIN – Quer dizer que a mesma previsão deve ser aplicada aos deputados e senadores?

MC (Sorrindo) – Agora vocês falaram em jangada que é pau que boia. A única variável sai da eleição do José Ricardo,do Partido dos Trabalhadores, como deputado federal. Agora, a democracia-real amazonense volta a ter um representante que ficou órfão depois que saiu o deputado Francisco Praciano, também do PT. Visto que a bancada de 2014 a 2018, foi totalmente reacionária. Toda votou no golpe. Já o Senado, minha rainha Iemanjá!, é de causar dó. A mesma subjetividade arcaica sem espiritualidade do novo. Todos no quadro existencial que Freud chama de esgotamento da receptividade: repetição dos mesmos hábitos.

AFIN – E sobre o futebol brasileiro, vamos ter revelações?

MC – Não! Vão continuar os mesmos pernas de pau e os mesmos cartolas mandando e desmandando. Vocês querem uma previsão longa sobre o futebol brasileiro?

AFIN (Eufóricos) – Queremos!

MC – Na próxima Copa do Mundo a Seleção Brasileira, vai ser a mesma decepção dessa Copa passada. Só couro!

AFIN – Essa nossa companheira aqui (apontando para a afinada) é paraense. O Paysandu desceu para a terceirona, a senhora prevê que ele vai subir.

MC – A coisa tá braba prus ‘jacarés’. Vai ser preciso muito do espírito de lula do paraense. Muita fé em Iemanjá, muitos orixás, acompanhado de muito açaí, pato no tucupi e, principalmente, maniçoba. E nas horas de recreio muito carimbó nascido do fundo do rio. Minha jovem, como que você queria que seu time pelo menos ficasse na segundona se ele estava cheio de gringo? Sem qualquer drive paraense. 

AFIN – E o nosso futebol?

MC – Na mesma. Mas há uma coisa boa no futebol amazonense atual. É que ele não elege mais demagogo como antigamente.

AFIN (Contentíssimos) – Valeu, Mãe Celeste! Boas oferendas!

MC – Pera ainda. Vocês não pediram nenhuma previsão sobre AFIN. E eu quero falar.

AFIN – Aqui é a senhora que tem os poderes. Pode falar.

MC (Com os olhos fechados) – Eu estou vendo uma zona escura.

AFIN (Preocupados) – Zona escura!?

MC – Sim. Deixa eu olhar melhor (Pausa longa). Não, não é nada ruim. É a capa de um livro de filosofia-política que atravessou em minhas visões (Pausa breve). Ora, ora, ora, tudo beleza. AFIN vai produzir muito junto com a coletividade que é o que ela sabe fazer. Vai continuar a falta de dinheiro, mas não vai ser motivo para esmorecer,porque vocês são meios Lula, em termo resiliência. Além de quê, quem está com o povo não pede pinico. Saravá!  

E lá se foi Mãe Celeste em sua carroça rumo ao porto de Manaus. E os afinados se mandaram para a periferia em busca de um boteco para meter umas amargosas envolvidos pela potência ayon, o tempo-criativo que jamais é capturado, por isso não é datado. 

 

    

 

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