Produção Afinsophia.

Significar é conter em si um corpo-valor referenciado ao outro como partícula linguística. O outro que domina o signo-valor como forma de conhecimento desse significar. Nada pode ser significado sem o conhecimento do outro. Todo significar necessita da tradução do outro. Ou seja, deve se situar na comunidade semiótica. Significar é transportar signos-comunicativos. 

Todavia, como o mundo é um universo de significância, como diz o filósofo Foucault em sua obra As Palavras e as Coisas, há nomes por todos os lados, toda significação carrega em si um corpo classificado como referente a um objeto. Aí, a concretização de sua significação: servir de prova referencial do mundo. Seu antagônico seria: não significar é não servir ao mundo.

Como prova referencial do mundo, a significação para significar nesse mundo passou por um processo tríplice que lhe outorgou a autoridade significadora. Primeiro foi selecionada, depois classificada e, por fim, hierarquizada. Daí que significar se traduz por carregar a autoridade. Assim, quem significa realiza o modelo classificador de si como autoridade que pode fazer uso da voz sobre outras significâncias que se colocam como crentes desse discurso modelador. Acreditam. E quem acredita, acredita porque toma como verdade o discurso do significador autorizado por esse modelo.

O capitalismo é o modelo básico da sociedade classificadora, selecionadora e hierarquizadora voltado precipuamente para seu objetivo: lucrar. Mas o capitalismo não se mantém somente por força de sua ideologia econômica do lucro. Para se manter ele precisa, também, ocupar outros territórios. Como dizem os filósofos Deleuze e Guattari, precisa estriar outros espaços com sua semiótica paranoica que lhe proporciona o delírio da dominação. Assim, ele surge como o grande Pai que sabe o que é necessário para felicidade e satisfação dos filhos. Por isso, tudo é capitalizado: as relações sociais, os entretimentos, os meios de comunicação, as religiões, as famílias, etc, tudo que se apresente significado como moral de comportamento de sucesso. 

Apanhado nessa ordem paranoica dominante, seu agente-escravo realiza sua profissão de fé a partir do que entende e busca como significação. Todas suas reações serão impulsionadas pela força dominante que lhe subjugou com o discurso da significação. Como o discurso do capitalismo não passa de uma dolorosa abstração, também vista e vivida como fetiche, seu agente-escravo não passa de uma abstração. O que significa que sua busca por significação não passa de delírio de poder. Como é uma insuportável abstração sua existência é total malogro. 

É por isso que a construção da insignificância surge já na infância, onde os valores estabelecidos pela sociedade burguesa modelam, estratificam, cristalizam e determinam os egos-emergentes que confundirão o discurso de dominação com o alcance da significância-social. O que para psicanálise é exatamente o contrário: o sentimento de insignificância nasce exatamente por força de uma infância traumatizada por enunciados castigadores, censuras, castrações. Daí que toda pessoa dotada de uma grande dose de insignificância é invejosa, odeia, vingativa e destruidora. Procura sempre as formas pedradoras da sociabilidade-democrática.  

Há cotidianamente do Brasil atual, um desfile compulsivo de homens e mulheres insignificantes desesperados por significações que poderiam lhe atribuir poder. Buscas frenéticas de reconhecimentos para que se sintam necessários ao mundo. Um verdadeiro carnaval de insignificâncias, visto que o endereçamento da busca frenética para o reconhecimento partiu também de fontes insignificantes. O que significa que ninguém pode significar ninguém além do que significa. O que nesse casso, ninguém carrega em si valores diferentes dos estabelecidos pelo modelo capital, o modelo que só significa o que significa seu espírito-lucrativo. Como o quadro é o quadro do capital, esses indivíduos permanecerão insignificantes para a democracia cuja significação difere do modelo significador que os significou.

Nesse quadro, só resta a ditadura da insignificância como delírio de poder. Ditadura que todo democrata tem que se resguardar ciando novas formas de sentir, ver, ouvir e pensar. O que só nasce como novo através da práxis e da poiesis.  

 

 

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