Produção Afinsophia.

                                                       “Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha, constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novo; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes…”

                                                                                                                   Nietzsche

Foi o filósofo Pitágoras, excelentíssimo matemático, nascido em terras asiáticas, quem criou o conceito filosofia. Embora não sendo grego telúrico, e fazendo parte do que se costumou chamar de filósofo pré-socrático, possibilitou a criação do conceito filosofia e, consequentemente, o conceito significador de filósofo.

Assim, a palavra filosofia é o encadeamento de dois devires como práxis e poiesis: filo e sofia. O primeiro remete ao conceitos amor, amizade, desejo, querer, busca, suspeita, espanto,etc. Politicamente democracia. Já o devir sofia remete ao devir saber, criação, produção, etc. Assim, que para os filósofos Deleuze e Guattari a filosofia é criação de novos conceitos. O filósofo é um criador de novos conceitos. Ou, quando apanha um antigo conceito ele racha e faz brotar novas partículas-conceituas que se encontravam ocultas nesse antigo conceito que passa a ser tido como o novo. O que os dois filósofos realizaram. 

Porém, é da Grécia que vem o conceito antagônico de filósofo: filosofastro. Filosofastro significa o tagarela, falastrão, o óbvio, o senso comum, o redundante, etc. Ou seja, aquele que faz pose de filósofo, mas não filosofa. É um indivíduo que representa o saber-verniz. O saber superficial, medíocre. Ou como diz o filósofo amazonense, Rui Brito: o saber-capivarol. Um saber de almanaque, como nos mostra Érico Veríssimo em sua obra Música Ao Longe. Um baixo saber que só serve para enganar e permitir ganhos de dinheiro dos apedeutas que lhes fazem corte. O que significa que não há vida inteligente, criativa e transcendente no filosofastro.

 O discurso do filósofo afirma que não existe filósofo burguês, e, muito menos, filósofo nazifascista. A filosofia é um devir um movimento do novo que atualiza o virtual que passa ao real. Ou melhor, como o virtual é a potência do real, a filosofia é o processual da práxis e poiesis que atualizam o virtual com implicação do real. Uma forma clara de passagem do imanente ao transcendente como novo.

Assim, fica fácil de compreender que o filósofo é alguém que se movimenta continuamente pelo processual singular de seu devir produtor do novo. Na linguagem claramente política, o filósofo é aquele que processa as metamorfoses da dado como objetividade determinante. Como diz Marx, o filósofo é aquele que se apropria da “matéria em por menor, analisa suas formas de desenvolvimento e encontra seus elos internos. Só depois desse trabalho realizado sabe que o movimento real pode ser exposto. Quando consegui isso, ia a vida da matéria se reflete nas ideias, ele pode contar que está diante de uma construção a priori. As ideias nada mais são do que coisas materiais, transpostas e traduzida na cabeça dos homens”. Por isso o tirano odeia o filósofo, porque a singularidade do filósofo é totalmente oposta aos tiranos e escravos. Os reativos, como afirma o filósofo Nietzsche.

Como o filósofo é um devir-criativo, um eterno-movimento, um ser que valida a Substância infinita, dialeticamente criadora, como mostra o filósofo Spinoza, o filosofastro jamais pode ser chamado de filósofo. O filosofastro é imóvel, satisfeito em sua indiferença em relação às mudanças. Defensor dos valores que já alcançou como sua segurança. Daí, ser reacionário, sua malograda existência se resume em reação. É conservador cujo olhar é sempre voltado para si, porque tem pavor do que é fora. Do distante virtual que processa às mudanças. Por isso, defende desesperadamente os elementos que garantem seus valores. Em síntese – sem síntese -, o filosofastro é um insuportável burguês, diria o filósofo da liberdade, Sartre.

Sendo um contínuo devir que pela práxis e a poiesis produz o novo, o filósofo jamais atuaria em governos reacionários, porque esses governos têm como estratos  uma realidade molar. Imóvel, sustentada pelo já posto em forma de estratificação, sedimentação, cristalização, estriamento, seleção, classificação e hierarquização como formas de defesas. Um filósofo jamais atuaria em um governo Bolsonaro cujo corpo é composto de seguimentos primariamente arcaicos. O que não move o bem comum. O que não proporciona o coletivo devir-social. 

Daí, que uma pessoa pode a até cursar uma Faculdade de Filosofia, mas não ser filósofa. Ou pode ser. Mas o verdadeiro filósofo é aquele cuja existência encontra-se comprometida com uma vida rica e alegre. E uma existência só pode ser rica e alegre com movimento. Uma contínua transcendência do imanente. Tudo que o filosofastro-burguês não possui como particularidades suas, visto ser uma insuportável negação da vida. Um obsessivo-ressentido. Um reativo passional.  

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