Produção Afinsophia.

A democracia é um regime de governo constituído pela composição das potências dos homens e mulheres que determinam o estatuto civil, como bem comum, que estabelece o direito de igualdade política de todos. Como singularidade potência-política, a democracia só é possível em seus corpos racional e social. É a dimensão racional dos homens e mulheres que enseja a sociabilidade de todos expressa como sociedade. Desta forma, entende-se que só há democracia quando todos atingem a dimensão racional que levará a produção da sociabilidade. Não há democracia sem racionalidade e, consequentemente, sem sociabilidade.

Em um estado cuja política é impulsionada pelo devir sociedade-civil, embora não seja tão visível, existem os seres de espíritos democrático e seres de espíritos antidemocrático. Os primeiro se movimentam pelos atos racionais sociabilizados. Os segundo de mantém em situação molar, impávido, como reação não racionais sociabilizadas. Essa diferença de postura política decorre da constituição de cada corpo. O democrata se movimenta livre sempre em processual de mudança em forma do novo. O antidemocrata se mantém continuamente temeroso, preso por forças místicas, supersticiosas, em estado de clara paranoica que lhe deixa obsessivamente  sempre preocupado em se defender de um inimigo que é ele mesmo, mas que projeta em outro.

O antidemocrata, na forma da extrema-direita, é um tipo que dificilmente muda. Exatamente por se encontrar aprisionado nas névoas da mistificação e da superstição  que o faz ser temeroso de tudo que foge às suas crenças. Ele existe psicopatologicamente na ordem do tabu. O tabu é um estado constituído por um mana, poder misterioso, que se apresenta diante do crente em forma corporal e incorporal carregadas de sacralidade, proibição, perigo e inquietação. Antropologicamente e psicanaliticamente, de acordo com Freud, há três especies de tabu: tabu humano, tabu animais e tabu vegetais. Porém todos os três têm os mesmos poderes capazes de atingir os que lhes creem. 

Como o tabu é um estado sagrado e proibido aquele que o transgride é punido. Por isso o cuidado para não transgredi-lo, porque a punição logo se apresenta como causa exterior ou interior, auto-castigo. Para Freud, o tabu é análogo a neurose obsessiva: há um impulso inconsciente para a sua violação ao mesmo tempo um temor consciente para a sua não violação. O sentido contrário ao tabu é noa, “o habitual,acessível a todos”. Um elemento intrínseco e poderoso do mana do tabu é o contágio. Aquele que viola um tabu passa a ser uma personagem contagiosa, perigosa a si e aos outros.

O tabu da extrema-direita é a democracia. Por tal, ela se precaver contra o délire de toucher, delírio do toque, que pode lhe contagiar. A democracia, como noa, o “habitual, acessível a todos”, é para ela um estado sagrado e proibido. Por isso, ela tem pavor da democracia. Como o tabu é uma crença nascida na infância e mantida na chamada idade adulta, como pensamento mágico, o mesmo dos povos primitivos relacionado ao animismo, poderes dos seres da natureza sobre o homem, a democracia como tabu não surge para o estrema-direita como um revelação dela, democracia, para ela, a extrema-direita. Posto que estando em estado de superstição e mistificação a extrema-direita não pode vê-la e concebê-la clara e distintamente. É por isso que ela se apavora ao ouvir seu nome. Ela não sabe o que é a democracia em si, assim como todos que acreditam no mana do tabu em função de seu mais baixo grau de inteligência, onde se origina o medo, a inveja, o ódio, a vingança e a destruição modos de ser da extrema-direita. 

A democracia, como tabu, para a extrema-direita é um estado sagrado e proibido por dois motivos. Um, ela teme o sagrado, porque ele conduz uma elevação, como a democracia, o que ela teme por não ser constituída de partículas sagradas para realizar a composição com ele. Daí, seu ódio contra tudo que é sagrado sem violá-lo. Ódio que é imobilizado pelo medo. Dois, porque ela teme o castigo. Mesmo sabendo que é uma forma de libertação. A extrema-direita é profundamente covarde. Só ameça o que ela sabe fraco. O medo da punição impede que ela tente violar o tabu. Ainda mais, ela sabe que a violação desse tabu pode levar ao maior fortalecimento da democracia. 

Desta maneira, pode-se diagnosticar a extrema-direita como acometida do transtorno da psicose do tabu.

Quadro pintura da Willian Turner. ‘Barco a Vapor numa Tempestade de Neve’.

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