14/11/2018 

por Dalva Garcia*, via whatsapp

O poeta Manoel de Barros em Memórias inventadas, a infância escreve: “de uma infância livre sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas que comparação”.

Se estamos no jogo político de interesses distantes da poesia, é porque esquecemos que educação é comunhão dos diferentes.

Não se trata de diferentes partidários políticos, morais ou religiosos.

Trata-se de tão somente de considerar a alteridade sem prejuízo ou preconceito para o exercício do diálogo nas escolas e universidades.

A pretensão moralista e moralizante do projeto da escola sem partido encontra no pensamento liberal seus empecilhos.

Afirma John Dewey em sua Teoria da Vida Moral:

”A verdadeira questão moral está em saber qual espécie de eu que está sendo promovida e formada…Um grande respeito emocional pelo bem estar do outro, sem ser equilibrado pelo pensamento ponderado, poderá causar dano aos outros.

As crianças tornam-se prejudicadas por causa da “bondade” descontrolada; há pessoas que se sentem encorajadas a fazer exigências desarrazoadas a outras, ficando ofendidas ou magoadas se tais exigências não são atendidas; a caridade pode tornar os beneficiários parasitas da sociedade”.

Como professora não ouso desacreditar da preocupação dos pais e familiares com a educação de crianças e jovens.

Há perigos eminentes em toda e qualquer doutrinação, concordo.

Todavia, pergunto: se a educação não pode ser instrumento de doutrinação, por que a família não participa dos mecanismos da gestão democrática e autônoma da escola, segundo as orientações da Lei de Diretrizes e Bases (LDB)?

Não, o projeto que se intitula sem partido não quer isso.

Em vez de estimular a população ao diálogo nos Conselhos de Escola e Universitários, ele  quer aprovar uma lei que deixaria nas mãos de interesses partidários de políticos, jovens ativistas conservadores e até ex-atores de pornografia que exibem sua patética redenção nos meios de comunicação de massa!

Seriam esses protagonistas e publicitários do projeto apartidário?

O mesmo pensador da educação estadunidense John Dewey afirma que a identidade do eu e do ato é o ponto central na teoria moral e atua em dois sentidos: aplica-se o valor da ação ao eu.

Nesse contexto não haveria uma educação moral desinteressada, pois todo interesse envolve o eu.

Mas também não se pode supor que ela é egocêntrica ou egoísta, pois em vivência democrática o interesse muda sua estrutura e seu valor. Envolve o eu e outro.

Afirma Dewey: “a devoção em nome da família de que o eu é portador poderá se tornar uma escolha sábia ou poderá se tornar pretensiosa e vazia impostura”.

Para o autor, a personalidade não seria algo que exista à parte da associação e da relação com o outro, com o diverso.

Desta forma, pergunto de novo: o outro implicaria no universo escolar a possibilidade de múltiplas relações?

Ou estaríamos tratando de valores hegemônicos de um conservadorismo partidário que se apresenta como pretensiosa e vazia impostura?

Por fim, termino esse pequeno texto convidando os presentes à reflexão.

Quero enfatizar, como professora de filosofia da rede pública de ensino, que lamento que essa reflexão não esteja sendo efetuada entre agentes da educação em seu autêntico locus, ou seja, nas escolas e universidades com a comunidade escolar — pais, funcionários, alunos, professores e gestores.

Pergunto com o poeta: por que os verdadeiramente interessados são condenados a “prender silêncios” ?

Minha ausência nesta audiência se deve ao fato de ser professora e estar na escola. Silenciada por circunstâncias que envolvem efetivamente a ação de educar que está distante do exercício da retórica e dos palanques.

Afivelada em cotidiano, assim como pais e alunos.

À mercê do interesse supostamente ” desinteressado” de empresários, banqueiros, redes de comunicação digital que preparam a denominada educação à distância.

Pergunto: qual democracia? Aquela que distancia os agentes efetivos da educação da ação política democrática?

No mais, termino com a afirmação de Dewey, acusado de socialista pelos liberais e de liberal pelos socialistas: “é absurdo supor que a diferença entre a pessoa boa e a pessoa má está em que a primeira não tem interesse no que faz, ao passo, que a má é aquela que tem interesse pessoal nas suas ações”.

O que estabelece a diferença entre as duas é a qualidade do interesse. No caso, o meu é o de garantir a liberdade para ensinar e aprender com o outro.

Por isso, de forma veemente manifesto meu repúdio a esse projeto de lei.

*Dalva Garcia é professora de filosofia da rede pública de São Paulo.