Produção Afinsophia.

Ele era inconfundível. Sempre com um riso imperturbável. Não havia nada atrás de seu riso, a não ser seu deserto infinito sem cognição indicadora e trepidação sensorial.

Sua voz reverberava o seu modo de ser inconfundível: uma inconfundível afasia. Nesse estado quase metafísico, ele não lia e não concebia o mundo concreto em sua normalidade, a não ser através dos desenhos. Jamais como uma realidade concreta em suas formas epistemológicas e sensitiva. Ele era, abstratamente, um puro ser que via o mundo só através dos desenhos. Onde não havia desenho, ele via um imenso vazio. Essa era sua condição de indivíduo cuja alma só refletia desenhos.

Como o mundo para si se resumia em desenhos ele não concebia nada que não fosse desenhado. Assim, não percebia os homens e mulheres singulares e originais em suas concretudes. Um dia, ele resolveu tomar o poder. Como só via desenhos, o poder que ele tomou não passava de um sedutor desenho.

Tomado o poder, ele se pôs a selecionar seus auxiliares que seriam responsáveis, com ele, pelos encaminhamentos de seu mundo desenhado como poder.

No poder, ele marcou a primeira reunião com seus auxiliares para que os mesmos apresentassem suas metas de trabalho. Qual não foi sua surpresa: seus auxiliares apresentaram pastas e mais pastas com folhas de papel todas em branco. Nenhuma proposta desenhada. Nenhum de seus auxiliares sabia desenhar.

Então, olhando seus auxiliares, com seu inconfundível riso, balançou a cabeça e tomado de um intenso esforço, acompanhado de uma dolorosa angústia, compreendeu que seus auxiliares eram também desenhos. Ele não sabia, por força de seu inconfundível riso, que desenho não pode desenhar outro desenho.

Assim, seu poder desenhado escafedeu-se no ar, e, na sequência, ele também. E as mulheres e homens autênticos nem perceberam que em algum momento tal poder desenhado houvera existido.