Produção Afinsophia.

A força reativa é um corpo que foi impedido de se movimentar como conatus, o que persevera a vida, nos dizeres dos filósofos Nietzsche e Spinoza. Para o primeiro, o reativo é aquele foi impedido filo e ontogeneticamente em seu instinto e espírito, e que passou a condição de ser-corrompido. Para o segundo, é aquele que teve sua potência-vital imobilizada se tornando sujeito do afeto triste.

A força reativa é também tida como a força ressentida, onde predomina o afeto inveja como sua condição básica. O sujeito ressentido é aquele que acusa o outro como responsável por sua condição sofredora. Ao invés de procurar a causa do sofrimento, que se encontra nele mesmo, ele usa sua única fórmula: acusar o outro. Ao acusar o outro como responsável por seu sofrimento, ele acredita (se ilude) que alivia sua dor, visto que, para ele, seu sofrimento não é de sua responsabilidade.

Porém, essa acusação não termina no ato de apontar o outro como responsável por sua dor. Ela se metamorfoseia em inveja. Embora já contenha em si as partículas do corpo invejoso antes da acusação. Transformado o outro em responsável por sua dor, o ressentido não se satisfaz com seu estado invejoso. É então, que ele metamorfoseia a inveja em ódio. O ódio é uma concentração reativa de energia que tensiona o sujeito odiador, mas não libera essa energia que fica concentrada no próprio sujeito lhe inquietando, diminuindo mais sua potência de agir. Impossibilitado de liberação da energia, o sujeito odiento metamorfoseia seu ódio em vingança. A vingança é a reação (não ato. ato é criativo) contra o objeto escolhido para ser atingido. Assim, a vingança se metamorfoseia em destruição. O objeto escolhido deve ser destruído para aliviar o afeto-triste-ressentimento. Mas não alivia. No reativo o ódio nunca acaba.

Desse quadro, infere-se que o sujeito reativo é, como afirmam os filósofos Deleuze e Guattari, um sujeito molar. Um sujeito-imóvel, onde os devires criativos estão obstruídos. Sua molaridade é produto dos agenciamentos de anunciações coletivas provocados pela semiótica dominante do capitalismo paranoico. Toda sua condição-molar encontra-se imobilizada em seus espaços estriados muito bem codificados e sobrecodificados como objetividade-estruturada tendo como suporte um sistema de seleção, classificação e hierarquização. Diria o filósofo Sartre, que trata-se de um sujeito cujo projeto malogrado deixou-lhe preso solipsisticamente em um insuportável em si: nada entra nada sai. Nele não há qualquer vestígio de suspeita que a vida é movimento. E que o homem só vive como devir práxis e poiesis.    

  Para o sujeito reativo, o mundo é o que ele se sente bem protegido. O mundo de seus valores eternos que são cultuados como tradição e costumes que lhe faz reacionário. Sujeito que só reage em função desses valores. Seu sentido de sociedade é o mesmo que o sentido que tem de Deus: o que lhe satisfaz como sujeito-superior. Sua identidade de classe privilegiada. Daí, que sua verdade é sua reação contra tudo que se mostre como novo, como diferente e como necessário. O que fortalece sua condição de sujeito contingente, jamais necessário. Embora ele se tome como necessário.

Pois foi exatamente esta força reativa que perpetrou e concretizou o golpe, a prisão de Lula e a eleição presidencial. É uma força a-histórica, porque nela não se constituiu a dimensão humana como movimento criador infinito. Nela  habita a força como pavor da vida-ativa. Dominada por este pavor, ela não pode sequer cogitar a democracia, visto que a democracia é um corpus-politico-social sempre em transcendência poiética. A liberdade sempre se movimentando como novo.

Dessa forma, dominando estes saberes e dizeres, todos os democratas entendem o que representa o momento atual e saberão como agir, criativamente, na produção da democracia como potência-coletiva alegremente humanizada. Por que como dizem os filósofos Deleuze e Guattari, ao contrário de corpus-numéricos, somos corpus-numerantes. E, ao contrário de corpus-molar, somos corpus-moleculares. Os corpus-revolucionários.  

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *