NÃO HÁ LUTO, PORQUE A DEMOCRACIA É DEVIR-ALEGRIA CUJO MOVIMENTO NÃO PARA DIANTE DA PARANOICA TIRANIA

Produção Afinsophia.

Em psicanálise o luto se constitui na perda do objeto amado. O sujeito investe sua libido narcísica em seu objeto de desejo que pode ser um parente, um amigo, uma ideia, o que lhe possibilita seu deslocamento interior para o exterior. É a forma dele se amar no objeto escolhido fora de si. Amar é amar a si mesmo no objeto amado. Ela se ama nele. Ele se ama nela. Ambos seus objetos de amor.

O luto é produzido no momento em que o objeto do desejo desaparece e o investimento libido narcísico não encontra mais onde se localizar fora. O investimento libidinal narcísico, sem objeto exterior, volta para si mesmo. É a introversão. Quando alguém perde alguém que ama, seu objeto de desejo, sua libido narcísica volta para dentro de si. Esse é o fundamento da dor. Enquanto não for encontrado outro objeto do desejo fora para que  a libido narcísica seja investida nele, o luto permanece. Com o passar do tempo, o sujeito, como precisa agir fora de si, ele encontra outro objeto para o investimento de sua libido narcísica e o luto acaba. O estado de loucura é resultante da quebra da relação da libido narcísica interior com o exterior. É a introvisão básica, como afirma Jung.

  Observando esse quadro, e comparando com com o resultado da chamada eleição presidencial, que numericamente o candidato da extrema-direita e apologista da tortura foi eleito com votos semelhantes à sua personalidade, não se pode aplicar os conceitos de Freud sobre o luto. Como foi apresentado, para a psicanálise para que haja luto é necessário que exista objeto do desejo no exterior para servir de investimento libido narcísico ao sujeito. Como a democracia é um devir-alegria em um contínuo movimento como produção de novas de sentir, ver, ouvir e pensar ela não se encontra fora. Ela é, como afirma o filósofo Spinoza, causa imanente de si, por, para si. Forma de produção coletiva causada pela composição de todas as potências das mulheres e homens livres. Todos causas de si mesmos, por si mesmos, para si mesmo.

Observado essa causa qualitativa de produção política-coletiva o único momento em que a democracia é exterioridade é quando ela se torna constituída, expressada nas práxis e poiesis do Bem Comum: o estatuto do Estado. O que já é a demonstração da transcendência produtiva, como efeito, da causa imanente de si mesma, por si mesma, para si mesma. Ou seja: para todos. Ela é concretizada fora através das relações sociais implicadas pelas determinações das instituições em formas econômica, política, sociológica, psicológica, antropológica, ética e estética.

Assim, nenhum ato tirano pode ser causa de luto para a democracia, já que a democracia é causa de si mesma. E não pode ser efeito da dor propagada pela tirania. Democracia é Bem Comum. Tirania é mal individual ou de classe. Por tal, todos que votaram com a tirania, votaram com seus corpus tirânicos pelos quais cada um é dominado.   

Chorar ou ficar triste com o resultado numérico da eleição, é se tornar efeito da causa tirânica. O que significa valorizar a irracionalidade tirânica. O que significa, como mostra Spinoza, compor com a tristeza do tirano. Compor com sua baixa potência de agir. Compor com sua posição reativa imobilizadora. 

Como o afeto de base do tirano é o medo, por isso sua compulsão é dominar, quem se entristece com o efeito tirano, é porque também prisioneiro do medo. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *