VIOLÊNCIA
Segundo a Comissão Pastoral da Terra, a violência atingiu até mesmo as crianças do acampamento e uma mulher grávida
por Redação RBA.
ARQUIVO/EBCViolência no campo

Famílias agredidas foram despejadas em janeiro da Fazenda Esperantina, de propriedade da siderúrgica Sidenorte Marabá

São Paulo – A diocese de Marabá (PA) da Comissão Pastoral da Terra (CPT) denunciou nesta segunda-feira (7) uma sessão de tortura praticada por pistoleiros contra um grupo de 10 famílias sem-terra, acampadas às margens do Rio Araguaia, no município de São João do Araguaia. A ação aconteceu na última sexta-feira (4), quando homens encapuzados portando escopetas, pistolas e revólveres chegaram ao local em duas caminhonetes. Além de adultos, o acampamento continha 11 crianças, entre três meses e 10 anos de idade, incluindo uma mulher grávida.

Segundo relatos, a sessão de tortura durou quase uma hora e não poupou nem as crianças. Enquanto os adultos foram espancados a golpes de paus, facões e coronhadas, tiros foram disparados próximos ao ouvido de duas crianças gêmeas de três meses de idade como forma de aterrorizar a mãe delas. Outras crianças foram derrubadas no chão e pisoteadas. Uma das mães que estava grávida também foi pisoteada e teve sangramento.

Após a violência, os pistoleiros colocaram fogo nos barracos dos agricultores com todos os pertences dentro e os forçaram a subir nas duas caminhonetes apenas com a roupa do corpo, sendo depois abandonados na Vila Santana, às margens da Rodovia Transamazônica, a cerca de 30 quilômetros do local do acampamento.

“Esse grupo de sem-terra, junto com outras famílias, foi despejado em janeiro desse ano da Fazenda Esperantina, de propriedade da siderúrgica Sidenorte Marabá, por ordem do juiz da Vara Agrária de Marabá. Sem ter para onde ir, esse grupo de famílias decidiu acampar às margens do Rio Araguaia, a cerca de 10 km dos limites da fazenda. Mesmo longe dos limites da propriedade, os pistoleiros não deixaram de perseguir as famílias. A ordem dada pelos pistoleiros foi para que as famílias fossem para o Tocantins e não ficassem mais no Pará”, informa a nota da CPT.

Segundo a Comissão Pastoral da Terra, o uso de pistoleiros para fazer despejos ilegais e torturar trabalhadores sem-terra tornou-se uma prática recorrente de fazendeiros da região. Nos últimos dois anos foram cinco ações semelhantes. A CPT destaca não haver informações se a Polícia Civil investigou e responsabilizou alguém por organizar essas milícias armadas na região sudeste do Pará.

Violência no campo

Em abril, a CPT divulgou a ocorrência de 70 assassinatos em conflitos no campo em 2017, o maior número de vítimas desde 2003, com crescimento de 15% com relação o ano de 2016. De acordo com o relatório, 28 dos 70 assassinatos (40%) ocorreram em massacres. Desde 1985, foram 46 massacres, com 220 vítimas.

De 1985 a 2017, a CPT registrou 1.438 casos de conflitos no campo, que resultaram em 1.904 vítimas. Apenas 113 (8%) foram julgados, com 31 mandantes e 94 executores condenados. “Isso mostra como a impunidade ainda é um dos pilares mantenedores da violência no campo”, afirma a Pastoral.

Dos 1.438 casos, 658 ocorreram na região Norte, com 970 vítimas. Apenas no Pará, são 466 e 702, respectivamente. Depois vêm o Maranhão, com 157 casos e 168 vítimas, e Rondônia: 102 casos e 147 assassinatos.

Com informações da Comissão Pastoral da Terra