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 O homem é prodigioso em criar reflexos de si mesmo para depois tomá-los como produzido por outro ente que lhe causa admiração, medo ou inveja. Mesmo quando ele sabe que foi ele o autor da criatura.

Sentindo-se desprovido de beleza, ele cria objetos para contemplar. Sentindo-se inseguro, ele cria objetos e idéias protetoras. Sentindo-se impotente, ele cria objetos para desapreciá-los. O que ele persegue mesmo são estágios metafísicos que lhe impedem de ter experiência real do que ele mesmo colocou no mundo.

Em Manaus a criação da ponte da ilusão que vai da não-cidade Manaus ao abandonado município de Manacapuru, obra superfaturada orçada inicialmente em R$ 500 milhões e finalizada em R$ 1 bilhão e 300 milhões, reaviva nas consciências de alguns manauaras um patético panorama provinciano– não visto da ponte – ocorrido quando foi construído, lá para bandas de 1949, o primeiro prédio na não-cidade. O prédio do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas, o famoso teluricamente, IAPETEC, depois transformado em prédio do INSS.

Na época, nos idos de 50, e até 60, era comum ver rumas de famílias aos fins de semana seguirem para frente do prédio para contemplá-lo, como se fosse uma obra extraterrestre. Um prédio, entre barracos e sobrados, era mesmo, para os contemplativos, obra de um deus. Um barraco, um sobrado o homem faz, mas um prédio é coisa de deus. Uma admiração que elevava o ego dos governantes da época que contavam, demagogicamente, com a confirmação em forma de votos nas eleições. “Foi na minha administração que o IAPETEC foi construído”, imaginaram eles. Barganha eleitoral.

O panorama provinciano – não visto da ponte – foi tão longamente vivenciado por estes manauaras que posteriormente, ao serem construídos outros prédios na não-cidade – o que a realidade geográfica é totalmente contrária -, serviu para piadas. Se, dizia: “Estão construindo muitos IAPETEC em Manaus”.

Hoje, a ponte da ilusão, que teve o início de sua construção na administração reacionária do ex-governador Eduardo Braga e sua inauguração no governo de seu amigo-sucessor, Omar Aziz, com claro propósito eleitoreiro, serve de contemplação para muitos manauaras. Rumas de famílias todo fim de semana rumam para a ponte da ilusão para admirá-la. Alguns se aventuram a atravessá-la até o município de Manacapuru, para depois voltarem desiludidos por não terem visto nada além da triste realidade que é o legado dos governos retrógados da direita que infelicita as vidas das populações do Amazonas.

Mas o que é bom, politicamente, na contemplação metafísica da ponte por esses manauaras é que ao se admirarem com a construção da ponte, pela força da imaginação mágica, eles passam a crer, sem perceber, que ela é obra de um ser extraterreno. E aí, nesse distanciamento, eles esquecem os responsáveis por sua construção. E no dia das eleições, a construção da ponte da ilusão, não servirá demagogicamente de moeda de compra de votos.

De formas, que o entretenimento-metafísico desses manauaras não se ligará com a realidade calculistas destes governantes. O patético panorama visto da ponte. Com todo respeito ao dramaturgo norte-americano Arthur Miller que emprestou o enunciado, “o panorama visto da ponte”.