Enviado por luis nassif

Primavera de Manaus 2: a fonte do poder dos coronéis regionais

No federalismo torto brasileiro, do presidencialismo de coalizão ao modelo da radiodifusão, há uma lógica cruel em relação aos rincões.

O chamado eixo moderno – São Paulo, Rio e Sudeste – olha com desprezo o anacronismo político de estados comandados por coronéis. Mas a lógica federativa – e da radiodifusão – induz a alianças com o que tem de mais atrasado na política nacional. O governo, pelos três senadores de cada estado; as redes, pelas verbas publicitárias dos governos estaduais.

Foi esse modelo torto que garantiu o coronelismo do Amazonas dominado, inicialmente, por Gilberto Mestrinho, o Boto de Tucuxi; depois, por Amazonino Mendes, o “Negão”.

No centro-sul, pouco se sabe sobre as estripulias, esquemas empresariais e esbirros autoritários de personagens como Amazonino. É uma relação colonial: o governo extrai o poder político, as redes as verbas publicitárias. E deixam-se populações inteiras sob o jugo do atraso e do autoritarismo.

De vez em quando, um ou outro episódio ganha repercussão nacional.

Foi assim na história da compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso – na qual Amazonino desempenhou papel central. E também no episódio das 2 mil motosseras distribuídas por todo o Amazonas, depois vendidas a preço de banana para madeireiros.

A mansão alugada

Em 2001, a mansão de Amazonino foi tema nacional, 2.500 metros no Tarumã, com paredes de vidro, heliporto, piscinas, lagos artificiais, avaliada em mais de R$ 10 milhões. E também pelo fato de ele não se dizer dono dela, mas inquilino do empreiteiro Otávio Raman Neves, dono das duas maiores empreiteiras do Estado, a Capa e a Exata, que, suspeita-se, têm Amazonino como sócio oculto.

Na época, Amazonino informou o valor do aluguel pago: R$ 2.000,00 mensais.

O episódio serviu para revelar um pouco o que é a corte de Amazonino, atualmente no PDT fundado por Leonel Brizolla.

A CPI avançou um pouco mais e indiciou o prefeito de Coari, Adail Pinheiro, também indiciado pela Polícia Federal na Operação Vorax, acusado de desvios de mais de R$ 70 milhões.

Seu sucessor também foi cassado, defendido pela CBN Manaus, por manter negócios com o irmão do diretor Ronaldo Tiradentes.

Nas relações espúrias da política amazonense, embora não seja da banda podre, Artur Virgilio se permitiu fazer comício de mãos dadas com Adail.

Outra CPI, da Exploração Sexual, conduzida pela Assembleia Legislativa, envolveu próprio governador Omar Aziz, que começou a carreira como Secretário de Segurança no governo Amazonino. Uma moça admitiu ter tido relações com ele aos 14 anos, mediante o cachê de R$ 150,00. Deu entrevistas para a revista Época que serviram de base para um inquérito da Polícia Federal (clique aqui).

Posteriormente a moça voltou atrás em suas declarações e um promotor ordenou o encerramento do inquérito sem ouvir mais ninguém. Tempos depois, irmãos de Aziz espancaram um professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas) que comentou o caso em sala de aula.

No ano passado, o vice-prefeito de Amazonino, Carlos Souza, foi afastado do cargo, por decisão do juiz da 2ª Vara Especializada em Crimes de Uso e Tráfico de Entorpecentes (Vecute), suspeito de participar de uma organização criminosa comandada por seu irmão, ex-deputado Walace de Souza.

Nacionalmente, conhece-se um pouco da política do Amazonas através dos braços que conseguiram montar esquemas nacionais, como o ex-Senador Gilberto Miranda, que enriqueceu intermediando cotas de produção para empresas que se instalavam na Zona Franca de Manaus. Ou da empreiteira empreiteira Enconcel obteve contratos de mais de R$ 50 milhões com o governo do estado, na época do episódio da compra de voto.

As ligações de Amazonino com a empreiteira foram objeto de investigações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal. Acabou se livrando por suas ligações com a área federal.

Um dos pilares midiáticos centrais dessa estrutura é justamente a CBN Manaus e seu diretor Ronaldo Tiradentes, um dos principais personagens desta série.