Sarney e Roseana

Durante um evento no lançamento do livro Sarney, a Biografia, da jornalista Regina Echeverria, o presidente do Senado e ex-presidente da República, José Sarney (PMDB-AP), que este ano completou 81 anos, afirmou que não mais participará de eleições após concluir o atual mandato, que se encerra em 2014.

Após, a declaração de Sarney foi confirmada depois por sua filha, a governadora do Maranhão, Roseana Sarney. “Não foi uma declaração intempestiva — apenas perguntaram e ele respondeu. Ele quer se dedicar mais à literatura. Já está muito dividido, mas é um político nato, faz parte da história do país”, disse.

O Brasil e o Maranhão ficam sentem-se gratificados com a saída de Sarney, mas da declaração de sua filha saltam pelo menos quatro questões. Primeiro, se a questão do pai é a idade, muitos outros homens e mulheres na faixa etária ou até mais velhos, como Antônio Cândido e Oscar Niemeyer, continuam suas vidas ativas. Mas não existe comparação. É questão de composição. Pelas composições sórdidas na biografia de Sarney, mesmo que ele tivesse 17, 38 anos, em qualquer idade ele estaria senil. Nada da velhice como potência ativa da vida.

Segunda, o sentido de “política”. Sarney é um “político nato”, o que significa que compreende e controla há décadas os conchavos e conchavos da politicogastria nacional. Nada da política que movimenta a potência democrática do povo enquanto multidão, no sentido de Toni Negri e Michel Hardt.

Terceira, é hilária a afirmação de que Sarney vai se dedicar à literatura. Escrever para Sarney é apenas compilar as obviedades cristalizadas de sua existência malograda. Nada enquanto literatura como movimentação para fazer passar “a vida na linguagem que constitui as Idéias” (Deleuze).

Para acrescentarmos mais algumas questões, Roseana acrescentou que Sarney quer “encerrar enquanto está bem de saúde” e quer mais “paz para conviver com a família” depois de ter “prestado um serviço à nação”.

E ela mesma, aos 58 anos, reclamando da falta de reconhecimento, afirmou que também se distanciará da política após o fim do atual mandato de governadora. “Vou fazer o melhor governo da minha vida e vou ficar também de assistente. Cansei de não me reconhecerem. Sempre sou filha de alguém, ou então é a tal oligarquia”, concluiu.

O que Sarney chama de saúde para si é a doença para a população, para a democracia. O despeito de Roseana com o pai é uma tentativa de afirmar alguma individualidade. Mas os Sarney são na verdade uma única subjetividade dura que tenta manter a ordem constituída histórica de subtração do público em torno do privado.

Mas talvez os Sarney queiram se distanciar justamente no momento que vai sendo implantado no Brasil, desde o governo Lula, e agora com a presidenta Dilma, uma composição de avanços democráticos que força mesmo os mais reacionários e corruptos politicopáticos a trabalhar para o governo democrático, em detrimento de seus intentos sórdidos. Ou seja, não é uma saída, é uma verdadeira expulsão pelos novos corpos da política brasileira.

Alguém pode dizer que três anos ainda é muito tempo para suportar os Sarney, mas provavelmente muitos outros de mesma subjetividade sejam expulsos nesse período.

Bom para o Maranhão, bom para o Brasil, bom para a democracia.