Qualquer psicólogo, por mais deprimido e mistificado que seja, estudou o trabalho de Freud, sobre o sintoma dos nomes nas famílias, e, logicamente, mesmo deprimido e mistificado, estudou o desdobramento desse trabalho freudiano pelo círculo lacaniano. E, de quebra, estudou o trabalho do historiador-filósofo Philippe Ariès, Historia Social da Criança e da Família.

Tanto Freud como Lacan afirmam que o nome é uma espécie de angústia de reparação neurótica – ou, quiçá, psicótica – daqueles que dão os nomes às crianças. Uma tentativa fantasmagórica de realizar no outro o que não realizou em si para que através do nome desse outro sublime a culpa da não realização. Ou seja, o nome de uma criança é o destino determinado nela por seus pais neuróticos – quiçá psicóticos. Uma responsabilidade de livrá-los da culpa.

Já para P. Ariès, o nome é uma fantasia dos adultos projetada nas crianças. Assim como o sobrenome é a tradição. O que leva o psicólogo deprimido e mistificado a inferir que tanto em um caso como no outro a criança torna-se prisioneira dos desejos frustrados de seus pais. Imaginemos, então, as crianças cujos nomes seus pais extraíram das novelas da TV Globo. Que luta estas crianças não terão que travar para se livrarem da maldição do nome produzida pelo vazio de seus pais.

Por sua vez, o filósofo Deleuze, pensando uma forma de escapar da força fantasmagórica do nome sobre as crianças, para que ela escape da dívida da culpa de seus pais, afirma que é necessário que as pessoas se despersonalizem para escaparem da angústia do nome.

Com esse entendimento, o psicólogo deprimido e mistificado sabe que a necessidade de certas pessoas verem seus nomes instalados em prédios, órgãos, salões, ruas, etc, tem uma ligação direta com a culpa e o vazio demonstrado por estes quatros personagens. Daí que o psicólogo deprimido e mistificado infere que a vaidade de ver seu nome em um órgão público não é nada mais do que um sintoma grave de insegurança ontológica.

Como a insegurança ontológica é um sintoma social, uma forma multifacetada de investimento do medo ainda na infância, por isso parece ser uma tradição, há aqueles que, dissimuladamente, projetam em outros suas inseguranças, procurando exaltá-los. É o caso dos capachos que resolvem homenagear aqueles que eles acreditam serem autoridades merecedoras.

Conhecendo ou não o que o psicólogo deprimido e mistificado conhece, o certo é que o Ministério Público Federal do Amazonas (MPF/AM) acertou ao recorrer à Lei nº 6.454, de 24 de outubro de 1977, que “prevê, no artigo 1º, a proibição, em todo território nacional, de se atribuir nome de pessoa viva a bem público, de qualquer natureza, pertencente à União ou às pessoas jurídicas da Administração indireta”. Como também, recorrer “a Portaria nº 467/GC-5, de 11 de julho de 2001, que estabelece, no art. 1º, que os aeroportos e os aeródromos públicos brasileiros terão em geral a denominação das próprias cidades, vilas ou povoados em que se encontrem, declarando-se a posição norte, sul, leste, oeste ou quando houver mais de um na localidade”. No artigo 2º, § 2º, está previsto que “não será permitido atribuir nome de pessoa viva a aeroportos e aeródromos públicos”.

De formas que o MPF/AM realizou a catarse do aeroporto de Coari, extirpando a vaidade e a subserviência sublimada no nome governador Eduardo Braga, fazendo surgir a cura terapêutica com o novo nome: Aeroporto Municipal de Coari.

Em síntese, o MPF/AM realizou o insight que o psicólogo deprimido e mistificado sozinho não podia realizar.