O TRABALHADOR GORKI, O MEDO BURGUÊS E SUA PROJEÇÃO NO POVO

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Detalhe do quadro Trabalhadores, Despertai!, do pintor russo V. Serov.

Certa vez, num feriado no meio da semana, ao sair de casa, Pavel disse à mãe:

Sábado, terei visitas da cidade.

Da cidade? repetiu a mãe e, súbito, rebentou em soluços.

Que é, mãe? exclamou Pavel com desagrado.

Enxugou o rosto com o avental e respondeu suspirando:

Não sei, é…

Está com medo?

Estou? confessou ela.

Ele aproximou-se do seu rosto e, zangado, igual a seu pai, pronunciou:

É de medo que todos nós nos perdemos! E aqueles que mandam em nós tiram proveito do nosso medo e nos atemorizam mais ainda.

A mãe suplicou, gemendo:

Não fique zangado! Como não ter medo! Passei a vida toda no terror, tenho a alma coberta de medo!

Com a voz mais macia, ele disse:

Perdoe-me, de outro modo é impossível!

Trecho extraído da obra de Gorki Mãe.

O medo é uma produção cultural. Assim, o homem é o único animal que tem medo. Existem várias enunciações afetivas do medo. O medo místico, já muito bem denunciado pelo filosofo alemão Nietzsche. O medo que cria a dependência a uma dívida eterna cujo credor/fantasioso tem múltiplos cobradores como pastores, sacerdotes, padres, pais, entre outros. O medo mítico denunciado por poucos antropólogos e estudiosos da condição humana, como o filósofo, político e economista Marx, o psicanalista Freud, os antipsiquiatras Lacan, David Cooper, Ronald Laing, entre outros. Mas o pior medo é o que sustenta todas as outras formas de medo: o medo de se perder corporal e mentalmente. O medo criado pela enunciação paranoica capitalista através de seu personagem principal: o burguês.

O medo burguês é sua insegurança de existir autenticamente, o que o faz um ente malogrado, aprisionado nos subterfúgios, na má-fé, na eterna fuga ontológica, como afirma o filósofo Sartre. Medroso, ele cria uma moral para defender seu temor, que ele sabe que, se combatido, ele desaparece. Como não pode existir só por seu medo, ele cria a ilusão de que o medo encontra-se fora. É sua covarde projeção sobre o povo. Vendo o povo com medo, ele se sente seguro de seu medo, sua perdição. Por isso, ele acirra o seu medo no povo para que o povo acredite que o medo é seu. Pavel, revolucionário, sabe dessa imobilizadora verdade. Sua mãe não sabe. Foram os contínuos tempos de terror que lhe fizeram esquecer que o medo é uma produção dos fracos. Uma muralha paranoica contra o medo criado em si por sua fraqueza.

Pavel não tem medo do medo burguês. Pavel, como jovem, encontra-se distante dos tempos de terror de sua mãe, a tradição moral burguesa do medo. Pavel não caminha com essa tradição que cria o modo de agir e julgar. Agir com a moral do medo. Julgar com a moral do medo para manter a tradição do terror. Pavel não tem medo do medo burguês, ele é filosoficamente revolucionário. Ele sabe que se o povo deixa de temer o burguês desaparece, porque, como fantasma de si mesmo, o burguês se falsifica como verdade pelo medo. Acabou o medo no povo, acabou o burguês e suas representações místicas e míticas que, fantasmagoricamente, o sustentam.

O escritor russo, Maksim Gorki, que viveu entre os anos de 1868 a 1936, profundamente perseguido pelo regime totalitário do Czar, foi um escritor que colocou seu talento em posição revolucionária junto aos “ex-homens” que chamou em sua obra, de ralé, “criaturas que uma vez já foram homens”. A ralé e os operários são seus personagens da síntese contra a tese burguês do capital, do patrão, o inimigo da vida, o medroso do existir. Por isso, ele esculpe sua consciência revolucionário contra o mundo burguês. Para ele, uma multidão entediada e cinza. “Alguns deles tecem vagos sonhos sobre a beleza da vida há duzentos anos atrás, mas ninguém se coloca a simples pergunta: o que a tornará bela se nos limitarmos apenas a sonhar?”, revoluciona Gorki, acrescentando que aquele que une sua sorte à sorte de seu povo está vivo; aquele que, mesquinhamente, só pensa em sua própria tranquilidade, mesmo que isso implique estagnação, está morto.

E nada como pegar Gorki para manifestar a potência criativa do trabalhador nesse 1º de Maio que se avizinha. Esse Dia do Trabalhador que sintetiza a produção mundial dos bens humanos, em uma luta constante de exploração da força de trabalho, da força de produção, como relação de produção alienante. Gorki, um dos primeiros a ver a marginalização dos camponeses e operários pela tirania cruel da Revolução Industrial, por isso fez de sua literatura uma tribuna de luta política.

Intensamente um trabalhador, Gorki sabia e denunciava o medo que a burguesia patronal carrega e usa para dominar os trabalhadores com leis trabalhistas que não lhes permite sentir a condição de sua potência produtora e mantenedora da condição social. Ao enunciar o medo burguês, este russo inquieto previu o uso desse fator nas relações de dominação patronal. O medo de perder a vaga, o salário, a comida, a moradia, a saúde, a escola, a vestimenta, o transporte, tudo aprisionado no medo do patrão, o lucro, seu único ‘amor’.

A mãe suplicou gemendo:

Não fique zangado! Como não ter medo! Passei a vida toda no terror, tenho a alma coberta de medo!

Com a voz mais macia, ele disse:

Perdoe-me, de outro modo é impossível!

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