Amazonino Mestre

O filósofo Nietzsche diz que existem pessoas que passam pela vida e não sabem que tem consciência. Elas fazem seus percursos instintivamente sem que encontrem obstáculos que lhes obriguem a observar a si mesmas, para, posteriormente, ter a necessidade de observar o mundo. O produtor dos obstáculos, agenciador do surgimento da consciência. O que fundamenta o aparecimento da comunicação. Porque a consciência surge pela necessidade de comunicação, quando as pessoas precisam falar sobre seus obstáculos.

Também existem pessoas cujos conteúdos de suas consciências são sempre adequações do que elas encontraram no mundo e que lhes agradou. Essas pessoas não são nada mais do que reproduções de partes do mundo. Suas opiniões são apenas projeções dessas partes. Assim, elas nunca elaboram raciocínios que escapem ao que elas adequaram em si do mundo. Possuem sempre enunciações linguísticas e físicas ordenadas pelo mundo. Suas existências são um insuportável por e dispor do já posto. São peculiares. Também são personagens nietzscheanas. Não têm consciência de suas consciências. Comentam um fato por comentar. Falam por falar.

No episódio promovido para o Brasil através da internet, e também em outras partes do mundo, pelo prefeito de Manaus, Amazonino Mendes (PTB), cassado em primeira instância pela ínclita juíza Maria Eunice Torres do Nascimento, em que ele desejou que a senhora Laudenice Paiva, de 37 anos, que ela morresse, e a discriminou por ela ser paraense, que o levou a cogitar desculpas pelo ocorrido, dizendo que estava nervoso e também que a senhora estava com “comportamento desajustado”, percebe-se a presença do filósofo da Vontade de Potência.

Como foi visto por milhões de pessoas pela internet, a discriminação contra os paraenses não é confirmada apenas pelas palavras judicativas de Amazonino, quando depois de perguntar para a senhora de onde ela vinha e ela responder que era do Pará, e ele sentenciar “Pronto, está explicado!”. A discriminação se concretiza, brechtianamente, mais ainda, no momento em que ele gesticula. Sua gesticulação é um complemento de sua enunciação ecolálica, uma redundância, marcadora de poder: “Pronto, está explicado”. Ele, “nervoso”, como juiz, sabe por que a senhora está querendo construir uma casa em uma área de risco. Ela é paraense.

Mas Amazonino cogitou desculpar-se, mesmo dizendo que não tinha que se desculpar. “Por que eu tenho que pedir desculpas à moradora se eu fui lá salvar a vida dela?”, disse em sua certeza de deus. Mas, desapercebidamente, em seu argumento de quem não cometeu nenhum ato injusto, Amazonino confirmou concretamente o filósofo da crítica da moral, Nietzsche.

Como sempre ocorre com políticos que adequam o mundo a si, governam mais por impulso do que pela razão – daí dizer que estava nervoso -, o prefeito cassado cometeu mais duas discriminações. Dessa vez, contra dois povos. Contra duas nações.

Nós somos todos da Amazônia e não se pode discriminar no espírito republicano ninguém. Nem se fosse peruano que tivesse aqui, boliviano…”, sentenciou ele, segundo reportagem do Jornal do Brasil.

Nem se fosse peruano, boliviano”. Amazonino sem tomar consciência do mundo, do “espírito” amazônico, nisso não ter criado para si a necessidade da ação comunicativa, conforme apresentam os filósofos da Escola de Frankfurt, que passa pela reflexão, pela crítica, em razão do outro ser uma alteridade social, segregou os dois povos. O “nem se fosse” é uma sentença judicativa que procura qualificar alguém que não se encontra inserido no modelo – no caso em questão, capitalista -, considerado normal pelos que são responsáveis pela determinação do que é real, necessário, e importante. Ou seja, as classes e grupos dominantes, criadoras das opiniões que, naqueles em que a consciência não é uma reflexão sobre o mundo, determinam o preconceito. Uma opinião que não passa pela experiência racional. Pelo argumento de Amazonino, ele não discriminaria dona Laudenice nem se ela fosse peruana ou boliviana.

Na verdade, o prefeito cassado fez uso ressonante – enquanto sujeito-sujeitado como ressonância linguística – do que os filósofos Deleuze e Guattari chamam de “palavra de ordem”. Uma enunciação linguística ordenada como realidade coletiva que aqueles que estão capturados pela subjetividade dominante, ou do momento, fazem uso. No caso de Amazonino, uma enunciação “palavra de ordem” de uso despótico. “Nem se fosse”.

Agora Amazonino não pode dizer para os peruanos e bolivianos que quando ele teceu esse argumento estava nervoso, e os peruanos e os bolivianos estavam com “comportamento desajustado”.

E Amazonino ainda quer ser tomado como intelectual que lê os pensadores. Ainda bem que Nietzsche não é um pensador.

1 thought on “PREFEITO DE MANAUS, AMAZONINO, DISCRIMINA PERUANO E BOLIVIANO

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