Manaus, como uma das cidades mais violentas do país, não tem um território funcional de seu corpus social que não esteja sob ameaça dessa perversa ação urbana. Ruas, comércios, bancos, escolas, igrejas, todos os territórios estão à mercê de qualquer tipo de violência, sejam assaltos, agressões físicas e psicológicas, chantagens, todas as séries produzidas pela patologia social urbana.

Todavia, uma dessas violências que mais chama atenção por sua peculiaridade, é a violência nos Serviços de Pronto Atendimento (SPAs). A peculiaridade se mostra pelo fato de ser o órgão um lugar em que os usuários procuram terapias para suas enfermidades, mas que em razão da ausência de uma política de saúde no estado capaz de tornar o serviço de atendimento profícuo para a população, torna, em verdade, já em si mesmo, uma violência.

São números excessivos de pacientes que buscam atendimentos, que apesar da dedicação profissional dos médicos, enfermeiros, corpo técnico e assistentes sociais, o atendimento não se torna eficaz em face dessa quantidade de pessoas. Uma demanda que impossibilita um atendimento digno, respeitoso e científico, como exige a saúde pública. Os SPAs, cuja função precípua são os casos de urgência, distribui fichas para pacientes com uma simples coceira.

Assim, com uma grande demanda, decorrentes da falta de uma número maior de SPAs, e a ausência de uma pedagogia de esclarecimento à população sobre a função desse órgão de saúde, formam-se imensas filas, que levam alguns usuários a se irritar com a demora no atendimento, e então passam a ameaçar os médicos, enfermeiras, e funcionários do órgão.

Mais um caso profundamente preocupante ocorreu ontem, dia 16, no SPA de São Raimundo quando um rapaz, mostrando-se totalmente descontrolado, cujo comportamento causou medo aos outros pacientes, se voltou enfurecido contra a médica de plantão, ameaçando-a aos gritos e impropérios, porque a médica teve que ir para o seu almoço, no próprio estabelecimento, que durou nada mais do que 30 minutos.

Na volta, a médica sentindo que não havia condições emocionais para atender o violento rapaz, disse que não o atenderia, e o encaminhou para outra médica no consultório ao lado. Ensandecido, o rapaz voltou a ameaçá-la, obrigando-a a atendê-lo. A médica manteve sua decisão, e ele gritou afirmando que ela não sabia o que ia lhe acontecer. Pelo corredor, gritou que iria matá-la. Fato testemunhado por todos os presentes.

Foram chamados alguns policiais que fazem ronda na rua, posto que o SPA não tem segurança, que pegaram o ameaçador rapaz e perguntaram se a médica queria que ele fosse preso. Por sua vez, ela disse que não. O rapaz foi levado até o consultório da outra médica, para ser atendido em sua queixa médica. Sua queixa médica não passava de uma simples gripe.

Os funcionários, preocupados com a ameaça do meliante, disseram à médica que ela deveria fazer um Boletim de Ocorrência no Distrito Policial, o que ela fez. O rapaz é um preso cumprindo pena em regime semi-aberto.

Esse é só mais um caso de violência nesses órgãos de saúde em Manaus, cuja causa encontra-se na péssima administração do serviço público que envolve as ditas autoridades superiores até os administradores desses órgãos que ocupam os cargos de diretores como consequência de suas relações políticas.