No conceito de corrompido concebido pelo filósofo Nietzsche, para quem o corrupto é um degenerado, aquele que optou pela existência enferma, o capacho encontra-se bem ajustado nessa série. O filósofo Sartre diria que o capacho sempre está em Má-Fé. Nunca é um homem livre. É um malogrado, um frustrado, que, em razão de seu medo, produzido por um profundo sentimento de inferioridade, se submete a todos que acreditam ser detentores do poder – sem nunca suspeitar que o poder não existe – para, assim, pela fantasia, também se sentir importante diante daqueles que ele considera seus subalternos. Uma espécie de imagem emprestada.

Com uma infância malograda, capturada pela interferência alienada de seus pais, e uma adolescência confusa, onde exercita os primeiros passos da submissão, ele entra na existência adulta pronto para sua patológica missão. Seja representando um personagem tímido, ou um personagem colérico. Não importa a personagem, o certo é que sua existência é uma insuportável sensação de fracasso, que ele alimenta com a ilusão de ser amado por aquele que toma como poderoso, e por aquele que ele toma como seu subalterno. Sim, porque embaixo de um capacho há sempre outro capacho. Aliás, a sociedade não é formada só de capacho, mas que ele está espalhado por toda sociedade, está. Em casa, na escola, no trabalho, em todos os quadrantes sociais. É por isso que é difícil produzir uma democracia constitutiva. O capacho é de direita, de centro, de esquerda, e de outros lados, justo porque ele é produto/produtor de uma cadeia viral. Como a democracia é a sociedade dos homens livres, e sendo o capacho um escravo, é difícil ela se tornar uma práxis ontológica. Vejamos o caso do Amazonas, mormente Manaus, no que tange ao que se convencionou, eufemisticamente, chamar de política.

UM CASO EXPLÍCITO DE CAPACHO NO SERVIÇO PÚBLICO

Dia 24, véspera de Natal, ponto facultativo nas repartições públicas. Funcionários contentes pela efeméride cristã, e também contentes pelos dias de folga, que ninguém é de ferro para suportar a temporalidade sujeitante da mais-valia expressada no limitado salário. Em casa, os planejamentos para a ceia, ou, quem sabe, aquela visita “serra” à casa de um parente, ou amigo, ou talvez uma descansada em uma boa rede ouvindo os fogos lá fora, imaginando um amor.

Pois bem, seguros pelo feriado oficial, funcionários de uma instituição estadual passaram a ter suas seguranças comprometidas. Motivo: o diretor dessa instituição pública recebeu um comunicado que o governador Eduardo Braga iria fazer uma visita nas instituições do Estado. Azáfama, corre-corre! “Chama os funcionários para vir para cá!” E tome telefonadas intranquilizadoras para os servidores envoltos na paz natalina. O diretor, personagem colérico, queria por tudo mostrar ao governador – que estava mais para Robério Braga do que para a instituição do tal diretor – que ali na “sua” instituição se trabalhava com denodo, até nos dias de Cristo.

Como diria o pedagogo-teatrólogo Abdiel, “resulta, resultado”, alguns servidores servis (quem sabe também capachos) foram, outros não deram bolas, ficaram nos seus envolvimentos natalinos. E o personagem central causador da cena capachista, o governador, necas de aparecimento. Não deu as caras. Enquanto, por seu lado, o ‘concordino’ diretor, ficou com aquela cara do tipo, “o que foi que eu fiz para não ser amado?”.

Na segunda-feira, na dita instituição, um funcionário, aos risos debochados, disse: “Lembra daquele fim de ano que a direção deu um almoço pra gente dizendo que o governador viria visitar a instituição, e a gente ficou quatro horas esperando, olhando para comida que não era servida, e ele não apareceu? Pois é, eu lembro. Por isso não vim dessa vez. Não sou otário e nem moleque para ser tratado desse jeito.

Moral do fato: o diretor-capacho sofreu, mas não desesperou. Ele terá outros momentos para exibir sua submissão. Assim como a maioria que exerce funções semelhantes a dele, e que são institucionalmente enfermos como ele. Aliás, o que é a regra nos cargos indicados. Perdulariamente, comissionados.

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