O filósofo Nietzsche diz que é “corrompido um animal, uma espécie, um indivíduo, quando perde seus instintos, quando escolhe, quando prefere o que lhe é pernicioso”. Já o presidente Lula, em comemoração ao “Dia Internacional Contra a Corrupção”, depois de assinar projeto enviado ao Congresso, que transforma em crime hediondo a prática da corrupção, afirmou “que a corrupção é como uma droga. Às vezes está dentro de casa e as pessoas não sabem. Por isso, precisamos agir como ao fazer um chek-up. Temos que ser cada vez mais eficientes para controlar o dinheiro público. A outra forma é o processo de denunciar, as pessoas têm que ter a garantia de ser protegidas. Acho que o trabalho que estamos fazendo é como fazer um check-up. A cara do corrupto é aquela cara de anjo, é aquele que mais fala contra a corrupção, o que mais denuncia, porque acha que não vai ser pego, que sempre vai dar no outro. Mas, de vez em quando, a arapuca pega seu passarinho. E devemos isso às instituições que criamos”.

O CORRUPTO

Há nas duas enunciações sobre a corrupção, a igualdade do corrupto como uma patologia. Se, no filósofo Nietzsche, ele surge como uma degeneração do instinto, uma morte da vida, uma opção pela anti-vida, um ambular como forma de existência malograda, frustrada, que não livra com sua dor qualquer pessoa que encontre em seus atalhos – o corrupto só atalha, nunca caminha -, em Lula, ele aparece como uma forma narcotizada que obnubila tanto a percepção quanto a cognição, impedindo a formação de imagens nítidas da existência para ulteriores reflexões. Como a corrupção não é degeneração e nem narcotização, cujo efeito é meramente individual, mas coletivo, o corrupto é uma anomalia social, com graves elementos patológicos, manifestos na sociedade como um sujeito-sujeitado à amoralidade psicopática. Ou seja, o corrupto é um psicopata que não age contra a sociedade apenas se apossando do dinheiro público, mas em todas as instâncias sociais. Daí a ameaça para todos de uma comunidade.

Todavia, em função da abrangência política como práxis coletiva, o corrupto, o degenerado/narcotizado, é muito mais pernicioso, porque seu ato patológico – posse do dinheiro público – desdobra-se, como efeito deletério, em todas as formas de expressões de uma sociedade, não escapando nenhuma. Distribuindo-se tanto como destruição da saúde em forma de enfermidades e mortes, como na distribuição de saberes, obstaculizando o processo educacional do ensino e da aprendizagem, fatores de desenvolvimento, alegria e satisfação de um povo.

No mais, tanto o filósofo como o político apontam seus dedos para o estado do Amazonas e, principalmente, a cidade de Manaus, onde há décadas os corruptos têm carreiras inabaláveis, muitas vezes protegidos por instituições que deveriam fazer valer suas potências éticas. Não são casos isolados, são indivíduos, grupos e famílias inteiras portadoras dessa patologia social.

Se votado o projeto como crime hediondo, brevemente teremos nossos hediondos mais visíveis diante de toda população.