Das patologias afetivas produzidas pelo homem, a que mais causa dor, desespero e destruição é a inveja. Como phatos-humano, a inveja, por sua força de destruição, já foi estuda, analisada e apresentada por vários vetores da expressão humana. Romance, conto, poesia, pintura, cinema, teatro, dança, todas enunciações com sentido de mostrar sua crueldade. Shakespeare foi sábio em tratar dessa afecção dolorosa sempre responsabilizada pela dor do sujeito-invejoso. O artista inglês, com seus personagens, mostrou a força de destruição de existências inteiras operadas pela alma no espírito tanto do invejoso quanto do objeto de sua inveja, o outro, tomado como causa de sua infelicidade.

A psicanálise, tanto a freudiana mais ortodoxa, como a lacaniana, mostram a inveja como o desejo desviado do invejo projetado na imagem do outro acusado como alguém que se apossou de algo que pertencia ao sujeito invejoso. Como se trata de uma projeção do invejoso, ele jamais possuiu o que outro tem. Se o quer, quer como delírio.

A FÁBULA DE GRACIÁN E A DEMOCRACIA MANAUARA

Foi exatamente preocupado com a força destrutiva da inveja que o filósofo, escritor e jesuíta espanhol, Baltazar Gracián, que viveu entre janeiro de 1601 e dezembro de 1658, escreveu sua obra fabulosa O Homem Universal. Nesse escrito, Gracián narra e analisa a fábula em que conta o processo que os animais desenvolveram contra o Pavão. Cuja acusação base do processo encontra-se no fato do Pavão ser uma ave, segundo seus acusadores, detentor de uma plumagem que, ao ser exibida oculta todas as aparências dos que moviam o processo, membros do Partido da Inveja. As águias, por sua vez, negam-se a participar de tal ação. Já a Raposa, escolhida pelo leão para arbitrar o processo, sintética, diz que fechar a plumagem do Pavão é negar seu próprio ser. “É tão impossível ao Pavão não parecer Pavão quanto não o ser”, sentencia a Raposa, olhando para o Corvo, o que mais carrega a afecção vingativa.

Mas o que Gracián pretende mostrar é o quanto a pessoa invejosa é ressentida. Como ressentida, é mais perigosa que a pessoa que odeia. Uma pessoa que odeia outra odeia porque foi ofendida, ou talvez violentada fisicamente por esta. Mas quando a vingança se consome, o ódio desaparece. Já a pessoa ressentida, existe envolvida em uma eterna busca imaginária do carrasco. Como não sabe lidar com o que é, atribui ao outro a responsabilidade pelo que é como sofredora. Daí nunca se integrar ao real, dado a força imaginária de sua inveja. A sua máxima, como Corvo, é: “Devolva-me a bela aparência que nunca tive e que, por sua culpa, não posso ter”.

Gracián é grande quando mostra que certas aparências quando fazem sombras sobre outras não são produto de uma conspiração, mas tão somente em função das circunstâncias e dos olhares que lhe são dirigidos. Nenhum bicho é mais belo que outro. Ocorre, porém, que alguns fazem de seus estilos, que são suas singularidades, modos de ser produzidos por seus talentos e seus gostos. Nada que os coloque propositadamente para ofuscar os outros. Cada um é sua própria aparência. As diferenças estão nas direções em que as singularidades e notabilidades se encaminham. A inveja é perceber essas singularidades e notabilidades nos outros, quando não as temos, e não fazemos nada para tê-las como condição natural do existir.

Em Manaus, nos últimos meses, depois que a insigne juíza Maria Eunice Torres do Nascimento cassou em primeira instância a candidatura de Amazonino, essa fábula do filósofo Gracián se revelou contagiante. Inúmeras pessoas rangeram os dentes de inveja pela bela plumagem democrática exibida pela juíza. Despojadas dessa plumagem, essas pessoas passaram a invejar a atitude democratizante como se fosse um mero exibicionismo, como que dizendo com o Corvo: “Devolve-me a bela aparência que nunca tive…” Maria Eunice, como diz Gracián, só moldou seu estilo ao seu talento singular e sua linha notável como ser democrático. O que outro estilo pode fazer, mas sem inveja.

E como se não bastasse a inveja projetada em Maria Eunice, agora se materializou a inveja contra os ilustríssimos juristas procurador-regional Edmilson Barreiros e juiz federal Márcio Luiz. Ambos exibidos no dia do julgamento de Amazonino. A partir desse momento, a inveja se mostrou despudoradamente contra os jovens éticos do Judiciário. Entretanto, como a inveja é uma projeção da dor do invejoso, que, em sua insegurança, renuncia à singularidade da existência, nenhuma partícula desse corpo invejoso atinge os dois reais juristas, posto que os mesmos são protegidos por suas belas plumagens, assim como a juíza Maria Eunice.

Triste sina da inveja, ter que se satisfazer com sua zona cinza enquanto o Pavão se mostra policromo em si mesmo.

DISTINGUIR O HOMEM DE PALAVRAS DO HOMEM DE AÇÕES

Baltazar Gracián

É uma diferença única, como que há entre o amigo da pessoa e o amigo do cargo, que são muitos diferentes. Palavras maldosas, mesmo sem más ações, já são bastantes ruins. Mas é pior usar boas palavras e agir mal. Não se vive de palavras, que são ventos, nem de cortesias, o que é engano. Só presunçosos se satisfazem com vento. Para ter valor, as palavras devem ser acompanhadas de ações. As árvores que não dão frutos, só folhas, não costumam ter coração. Convém conhecê-las para saber de quais se obtém proveito e de quais somente sombra.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *