GOFFREDO DA SILVA TELLES, UM DEVIR-POLÌTICO

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foto: http://www.goffredotellesjr.adv.br/

O envelhecimento” é “uma ampliação da capacidade de agir, um aumento na simplicidade e na suavidade. O envelhecimento não é uma cessação, mas, ao contrário, é uma extensão suave e apaziguada da capacidade de agir”, diz o filósofo italiano Toni Negri. Nem todos chegam ao envelhecimento, já que envelhecer não é somente uma condição bio-cronológica do organismo. Alguns morrem antes da demarcação matemática da existência. Morrem crianças, jovens. Outros chegam à demarcação matemática, mas não experimentam o envelhecer como “um aumento de simplicidade e suavidade”. Estes são os que sabotaram suas infâncias, suas adolescências e suas juventudes. Chegam ao estágio bio-cronológico ressentidos, amargurados, rancorosos e, o pior, invejosos. São eficientes sabotadores de suas existências e, ao mesmo tempo, agentes sabotadores das existências de outros. Nada fizeram, em seus percursos, para ativar a vida e criar condições existenciais de diminuição das privações que impedem os não-sabotadores de chegarem à alegria da velhice. O direito ontológico dos oprimidos que não negam a vida.

A VIDA ATIVA DO DEVIR-POLÍTICO

Goffredo da Silva Telles Junior, jurista emérito, aos 94, existia em plena suavidade e apaziguado em sua “capacidade de agir”. Não podia ser diferente. Sempre promoveu a vida. Sempre sentiu e entendeu onde havia a opressão. Onde se declarava ou se ocultava a tirania. Assim, desde jovem se engajou nos seguimentos sociais libertários. Soldado, combateu na Revolução Constitucionalista de São Paulo. Como deputado Constituinte, lutou pelas salvaguardas nacionais, e profundamente pela defesa da Amazônia. Professor da Faculdade de Direto da USP durante 45 anos, sempre esteve envolvido nas causas pertinentes às questões políticas da Universidade, dos saberes independentes distribuídos igualitariamente social entre o povo em formas de políticas e das lutas contra uma pedagogia universitária moldada nos signos alienígenas importados de países colonizadores.

Em plena ditadura militar, que se apoderou do Estado Brasileiro, Goffredo da Silva Telles Junior teve participação destacada em defesa dos valores democráticos. Enfrentou com sua suavidade jurídica e sua determinação combatente os opressores. Juntamente com seu insigne e corajoso amigo, jurista Raimundo Faoro, colocou-se em defesa dos presos políticos e dos ameaçados em suas liberdade. Foi ele quem em 1977, redigiu e proferiu em público a contagiante e conscienciosa “Carta aos Brasileiros”, ato que iniciou a emergência das reivindicações sociais sem medo do autoritarismo militar. Foi onde o povo brasileiro começo a sentir que era hora de cessar a opressão. Aposentado como professor continuou combativo como orientador de estudantes que se igualavam às suas opiniões e crenças sociais. Não havia como parar o devir-político que carregava.

Olivia Raposo da Silva Telles, sua filha, afirmou que ele “morreu de velhice como um passarinho”. Uma figura terna construída historicamente pela semiótica familiar. Mas há um signo que salta desta serenidade linguística. Goffredo não morreu de velhice, ele morreu na velhice, o que é bem revolucionário. O que compromete todo o engajamento histórico deste homem. Alguns homens e mulheres, envelhecidos, vão morrer, mas não na velhice. Vão morrer de tédio, de angústias burguesas veladas pelas vaidades, aprisionados na velhice como um estágio-prisão, cela da impossibilidade de ser, gueto de espera da morte dos sabotadores. Nada do que construiu Goffredo, com seu devir-político. Goffredo atingiu a plenitude ontológica que leva os não sabotadores a se irmanarem, em serenidade, com o filósofo, Deleuze, quando ele diz que a velhice “é uma alegria pura”. E completa: “Amamos as pessoas de fato pelo que elas são. Acho que afina a percepção. Vejo coisas que não via antes, percebo elegâncias às quais eu não era sensível. Agora, eu as vejo melhor, porque olho para alguém pelo que ele é, quase como se eu quisesse carregar comigo uma imagem dele, um percepto ou tirar da pessoa um percepto. Tudo isto torna a velhice uma arte”.

Neste ativismo dos afetos e da razão, Goffredo da Silva Telles Junior, entrelaça-se com Toni Negri, no movimento construtor da velhice: “O que me agrada é a suavidade; é o tempo; é a intelectualidade, a imaterialidade das relações”. Potência infinita do devir-político.

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