PROCISSÃO DE SÃO PEDRO SOBRE MANAUS FLUTUANTE

É cultural e tradicional a procissão de São Pedro realizada nas águas do Rio Negro, em frente à cidade de Manaus, no dia 29 de junho. São barcos grandes, médios, pequenos, motores de popa, canoas, pranchas de surfe, e até nadadores. Um conjunto hidro-veicular construindo um movimento sacro-policrômico. Festa dos que estão nos veículos, e festa dos que assistem em solo firme. Um São Pedro mais ritualizado em águas que em fogos, como Santo Antônio e São João. Principalmente João, o autor da fogueira.

Todavia, a festa de logo mais terá outra propulsão. As águas do Rio Negro elevadíssimas em seu nível, caracterizando a maior cheia de toda história vista pela cidade de Manaus. O que formará um outro quadro perceptivo tanto dos embarcados como dos observadores terrestres.

Em uma perspectiva alterada, os veículos-aquáticos aparecerão para seus usuários como uma penetração sobre a cidade. E para os observadores terrestres, um agigantamento das embarcações em suas direções. Verdadeiro Cinerama. Espetáculo imperdível para os olhos historicizados. Só que um espetáculo produzido não pela natureza, como das antigas cheias, mas produzido, em sua maior parte, por obra dos homens desatinados. Uma produção saída da realização econômica-social da anti-razão. Um espetáculo vindo das distantes e próximas alterações ecológicas, concebidas pela força propulsora do capital. A exploração dos elementos do eco-sistema para fins privados.

Neste panorama, as águas não serão para Pedro, as águas do pescador. Não traduzirão a relação-movimento, homem/peixe. Os veículos deslizarão sobre uma superfície segmentada, muito bem dividida pelo capital em forma de cheia e de pútridos odores de uma cidade abandonada em seu interior pelos governantes que, historicamente, só deram as costas para o rio. E São Pedro, que tanto sabe desta cidade, fará seu percurso, mas não operará milagres, pois sabe que milagre sem obra do homem não existe.

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