O INTELECTUAL MANAUARA E SUA INSEGURANÇA HISTÓRICA

Uns dizem, “tempos de chumbo”. Outros, tempos opressivos. Outros, simplesmente ditadura. Foi nestes tempos em que, em um certo dia, um renomado arquiteto, não amazonense, foi levado à casa de uma família burguesa, para conversar sobre temas variados com alguns auto-considerados intelectuais amazonenses.

Chegando na entrada da sala, onde se encontrava o tal grupo de amazonenses seletos, o arquiteto, ainda em pé, ouviu o anfitrião, burguês, apresentar seus pares. Este aqui é o fulano, musicólogo. Este é o sicrano, poeta. Este, o escritor. Este, o crítico de cinema. Este, o pintor… E apresentou, orgulhoso, a plêiade de amazonenses auto-notabilizados. O arquiteto olhou-os, sempre calado, balançou a cabeça, deu meia volta e saiu da casa, acompanhado por seu cicerone.

Já na rua, o cicerone, perguntou por que saíra. Ao que o renomado arquiteto respondeu: “Diante de tantas sumidades, o que eu poderia fazer lá?”

Um espetáculo deprimente de busca de reconhecimento, onde qualquer sinal de intelectualidade é vista como dor.

Esta semana houve apresentação de tese no Curso de Comunicação da Universidade do Amazonas. Como convidado da mesa encontrava-se o notório e engajado jornalista Bernardo Kucinski. Terminada a sessão de apresentação e comentários, o jornalista foi levado por um professor-doutor do Departamento de Ciências Sociais para conhecer as dependências do ICHL, Mini-Campus. Em indicações e indicações, chegaram na LUA (Livraria da Universidade do Amazonas). Em seu interior, observando alguns exemplares, Kucinski, ouviu do professor-doutor a seguinte exaltação egóica:

— Eu leio quatro livros por semana.

O jornalista sorriu e afirmou:

— Eu não leio nenhum. — E acrescentou. — Eu tenho uma falha na minha formação intelectual: não li quase nada da literatura amazonense.

O professor-doutor, em solicitude de auto-reconhecimento, observou:

— Aqui tem bons livros sobre o tema. — Apontou uns livros, e continuou. — Tem estes livros do Márcio Souza.

Ainda não satisfeito em sua campanha de auto-promoção, o professor-doutor, mostrando um livro, disse que se tratava de um livro escrito por sua ex-mulher com ajuda de material colhido por ele mesmo. Uma auto-promoção pela anulação da ex-mulher. E Kucinski, sempre sorridente.

Quase 40 anos depois, em tempos sem ditadura, o intelectual professor-doutor repete a ilusão da fama de seus amigos diante do arquiteto. Nada lhe serviu ter vivido um tempo brutal, desumano, onde se entende com melhor facilidade que a vaidade é uma desgraça, vazio, que cada vez mais degenera o homem, como diz o filósofo Nietzsche. Um recurso dos que vivem no medo da desaprovação do outro. E, assim, nada constroem.

Quase 40 anos, o professor-doutor, chegando aos 70 anos, continua uma patética sombra de se querer valorado pelos conceitos dos outros. Da mesma maneira que seus antigos amigos. Nenhum momento suspeitou que se os saberes não forem para abrir brechas para fazer brotar o nome, nada nos serve. E que só se lê um livro quando ele é cortado como hecceidade. Como individuação, quando auxilia o leitor em individuações desterritorializantes.

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