OBSCENATÓRIO DA IMPRENSA

UMA SACADA FORA (OB) DA CENA (SCENUS) DO LUGAR DA AÇÃO (TORIUS) DA IMPRENSA

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–> A VOLTA DO CIPÓ NO LOMBO MIDIÁTICO DE QUEM MANDOU DAR: O “CQC” DE KASSAB.

Diego Barreto, diretor do programa “CQC”, custe o que custar, da Band, pediu à assessoria da campanha de Kassab, antes do final da propaganda eleitoral do segundo turno, que retirasse do ar uma cena em que o próprio candidato “adesiva” o paletó do repórter Rafael Cortez. Enquanto Cortez tentava fazer piada com Kassab, o candidato é quem “pegou” o repórter, e transformou-o em garoto-propaganda do 25. O programa, que sobrevive de tentar constranger políticos e as chamadas “celebridades” em troca da audiência, vendendo um viés “intelectual” (e tem quem compre), na realidade não faz humor: não passa de uma versão do casseta & planeta, que não carrega o humor por não movimentar as estratificações sociais, apenas reforçando os preconceitos. A diferença é apenas de ordem superficial: ao invés de homoeróticos, negros, gente feia e pobre, eles capturam o entendimento cristalizado de corrupção, de imoralidade e de ridicularização da política e transformam em clichê: nisso não são sequer originais, já que os próprios profissionais do executivo, se encarregam de parodiar-se a si mesmos e à política. Não faz a leitura do simulacro midiático, mas o reforça. Por isso não pode fazer humor. Daí o marketing eleitoral do DEM/PSDB kassabiano não se sentir constrangido em se aproximar e capturar a imagem do programa em benefício próprio, e para fins meramente comerciais. E ainda tem gente que custa a acreditar…

–> A NECROFILIA DO SIMULACRO MIDIÁTICO

A necrofilia midiática é um sintoma de que a mídia não tem interesse em informar, mas em ser a notícia. E ela, mais que nenhuma outra instância social – mais até do que as igrejas – reverbera a má consciência, o (in)desejo manifesto pela superstição de eliminar o efeito per si, e não a partir do conhecimento das causas. Um gosto pela violência social, mas apenas aquela que expõe a luta de classes e mobiliza claramente o enunciado da moral, caracteriza essa mídia necrófaga e necrófila. Daí a impossibilidade de compreensão dos fatos para além dos clichês. Por isso, lucra a Rede Record e o Portal Terra, quando mostram imagens de Lindemberg Alves, detido e espancado, obviamente pela polícia paulista. A informação também foi dada pela revista eletrônica Terra Magazine, do jornalista Bob Fernandes, voz lúcida que não se perde nem se confunde no meio midiático, que analisou mais racionalmente o fato, questionando a legalidade da ação, e chamando a atenção – através das palavras do jurista Luis Flávio Gomes – para o aviltamento dos direitos civis básicos, em nome do sentimento de vingança, da má consciência. No afã de satisfazer o corpo “mídia-videota” necrófago, atropela-se o fato de agentes do Estado terem simplesmente ignorado direitos civis e espancado uma pessoa ainda não julgada e condenada. O que abre um perigoso precedente para a tortura. Infelizmente, esta tem se tornado banal na residência da maior parte das pessoas: é só apertar o botão LIGA no controle remoto e começar a sessão.

–> O “ESPECIALISMO” DA TEVÊ ÀS VEZES FALHA

Em seu simulacro do real, a mídia, para sustentar e dar um verniz de credibilidade às notícias que produz, e por não possuir os signos da ordem do Estado como detentora dos saberes oficiais, apela a agentes externos quando o assunto em questão requer um “sublinhado” menos corriqueiro. Para isso, tem o seu exército de “especialistas”, dos quais se destacam com maior prevalência os economistas e os psicólogos. No caso dos economistas, o objetivo é menos tornar claro os falsos movimentos da economia de mercado e analisar as causas da alcunhada crise (como o foi na época de ouro do também alcunhado Neoliberalismo) do que envolver o telespectador-videota na verborragia econofástrica, donde o receptor deve sempre compreender o binômio “bem/mal” como entes absolutos. Miriam Leitão que o diga. No caso dos psicólogos, em sua maçiça maioria, o objetivo é reforçar e dar verniz pseudocientífico aos preconceitos abordados nas notícias. Não foi o caso, no entanto, do psicanalista e psiquiatra Raul Gorayeb, que foi ao insosso Jornal Hoje, apresentado pela ex-comediante Sandra Annenberg, e não endossou o discurso judicativo-condenatório a Lindenberg Alves. Ao contrário, colocou uma questão de ordem social necessária: a responsabilidade da sociedade. Atingiu em cheio a mídia, que se quer porta-voz e porta-estandarte desta sociedade. Ferida de morte, a ex-comediante tenta retomar o script de condenações e culpabilizações. Gorayeb nos sai com Shakespeare, o intérprete das paixões humanas, demasiado humanas. Este sim, o psicólogo de seu tempo, que soube, a despeito do isolamento autoimposto, fazer a leitura dos acontecimentos sociais e do envolvimento dos corpos-afetos na existência das pessoas. Quem matou Romeu e Julieta não foi o amor, mas o ódio cultivado pela sociedade. Da mesma forma, Gorayeb esboça um questionamento que deveria ser corrente nas análises midiáticas destes fatos. Infelizmente, pela cara dos apresentadores do referido jornal, ele não deve retornar tão cedo à cadeira de “especialista de plantão”.

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