Depois de estudos comparativos de alguns animais mais velhos vivendo com mais jovens colocados na relação dos adultos humanos com os mais jovens, cientistas afirmam que viver entre os jovens possibilita uma vida mais saudável e maior longevidade. Tratando-se de nossa sócio-cultural, a assertiva salta além do bioquímico, pois o bioquímico é o conatus natural do homem. Só que, como diz o filósofo Deleuze, o homem travou a vida ao constituir sua existência e com essa construção fundou sua aventura ontológica nos emaranhados do místico e mítico, fontes de suas ilusões fundamentais responsáveis por sua teoria axiológica de onde extrai seus conceitos valorativos, entre eles Bom e Mau. Grandes blefes existenciais. Pensemos na Moral Capitalista.

O filósofo Nietzsche, ao afirmar que há epígonos, novas gerações, que já nascem de cabelos brancos, estremece tais estudos, e mais ainda quando em suas Três Metamorfoses do espírito mostra o espírito camelo, a besta carregadora dos fardos valorosos da vida como o respeito, o humilhar-se, o orgulho, a heroicidade, tudo que ridiculariza a sabedoria: “Tu Deves”. Implicações para o cronos sócio-cultural. Há adultos e jovens que nunca foram crianças-devir (a terceira e última metamorfose), a criança que joga e conquista o mundo. Como não poiéticos, carregam os fardos dos valores milenares sem jamais suspeitarem (segunda metamorfose, o leão) que suas existências reativas, travadas pela força destes valores, aprisionava a Vida.

Estes espíritos aprisionados encontram-se em todos os territórios de nossa sociedade capitalística (Guattari) em forma de estados de coisas defendidos por enunciados reativos como ilusão de todos os tipos de felicidade. Relação familial, enamoramento, salário, vaidade, sucesso, plástica, reconhecimento, glamour, ambição, discriminação, preconceito, indiferença, etc. Estados de coisas e enunciações que não libera vida, mesmo no misto cronológico do adulto/jovem. Imaginemos um ‘jovem’, do tipo ou não, ‘malhação, que gosta de Faustão, Fantástico, Gugu, Galvão Bueno, Jô, Eliana, Hulk, Veja, Época, Folha, Paralamas, Titãs, Paulinha Toller, Charlie Brown Jr, Marcelo D2, Roberto Carlos, KLB, telenovela, Tropa de Elite, Arthur Neto, Agripino, Opus Dei, Daslu, Regina Duarte, Rogério Seni, Adriano, entre tantos camelos, aliançado com adultos. Não há mobilidade, não há desterritorialização. O camelo continuará chafurdando na lama pantanosa com seu fardo de valores milenares da moral dos deveres aprisionantes. Nada de novas formas de existências. Nada de aumento da potência de agir. Nada da emergência do novo. Tudo no saracoteio da ilusão da juventude eterna: “Eu tenho o espírito jovem”. Nada que o bom consumidor da semiótica dominante com seus valores consumistas. Mística da delusão do viver, já que não existe, para si, a referência da Vida, mas simulacros. E tome shoppings, e tome plástica, e tome botox, e tome baladas, e tome Coca-Cola, e Tome Globo, e tome o que se deve tomar para a eterna ‘juventude’.

Queres espírito devir-criança, alegria-longeva do viver? Ariano Suassuna, Niemayer, Antônio Cândido, José Celso, Tom Zé, as irmãs cantadoras de coco da Paraíba… Como diria o Xangai, “os cantadores da vida”. Nobres pesquisadores, o que anima a existência são devires. São declinações dos ângulos. Estéticas turbulências.

Bem, se o jovem-cronos não for o jovem-camelo, aí vale encontrar adultos para produzir vibrações ontológicas. Mesmo que sejam adultos reativos. Pelo menos um “Vão pra porra!” estes exclamaram.