Não se pode dizer que a prefeitura de Manaus não é imaginativa:

Ю “500 novos ônibus em Manaus. Eu sou um deles”, diz a propaganda nos coletivos da metropolitana Manô. Antropomorfizou os professores-bichinhos (e afundou o barco do sub-secretário), antropomorfizou os ônibus e ainda promoveu o milagre da multiplicação. Entregaram 150 e contam como os 500 prometidos.

Ю Enquanto isso, num ônibus ‘eu sou um deles’ lotado, chovendo mais dentro do que fora, uma cidadã filosofante percebe a pingadeira vinda da porta da frente, aberta. Pediu que o motorista a fechasse, pois estava molhando a todos. O motorista então disse que não podia fechar, para não embaçar o vidro, e pediu que os passageiros se concentrassem no fundo do veículo. Impossibilitados de fazê-lo pela lotação e pelo chuveiro em que havia se transformado o condicionador de ar, restou à cidadã insistir com o motorista para que fechasse a porta. O motorista então informou que era orientação da empresa que eles trafegassem com a porta dianteira aberta em dias de chuva. Se apelasse para a imaginação, a cidadã poderia pensar: “dos 500 ônibus novos, eu pego justo um velho!”. No entanto, como cidadão, ela usa a imaginação para a criação de imagens-afecções, que constroem a possibilidade de existência da cidade, e não para a catalogação das imagens-clichês, que nada criam, como faz a prefeitura.