Idiota (do grego idiótes: próprio) significa único, aquele que age, a partir da razão, como causa de si mesmo, o que não é vítima dos encontros fortuitos. Ainda na Grécia Antiga, a palavra foi sendo desvirtuada, passando a caracterizar aqueles que em nada queriam envolver-se nos negócios da Pólis; na verdade, aqueles que se tornavam incapturáveis em épocas de tirania, até chegar ao significado escamoteado de “ignorante”, porque se distancia do estado de coisas, e “passivo”, porque não o movimenta extensivamente. Mas se o movimento do idiota é ativo/intensivo para fora da opressão, do medo e da hipocrisia. É o movimento da vida.

Na América Latina, após as ditaduras militares que predominaram em quase todos os países, houve um preenchimento neoliberal do poder constituído. Depois do fracasso de suas concepções distorcidas de governar, apareceram Lula, Rafael Correa, Bachelet, Evo Morales, Kichner, Chávez, cada um a sua maneira singular, em diferentes graus, criando linhas de atuação política alternativas de governo local e novas relações de proximidade democrática. Estes são os idiotas.

DOS RESSENTIDOS COM OS IDIOTAS

Quando Plinio Apuleyo Mendoza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Vargas Llosa escrevem um livro chamado El Regreso do Idiota, traduzido ao Brasil como A Volta do Idiota, não tem como perceber essas atuações, primeiro porque estão muito bem situados numa segmentaridade dura, que é o neoliberalismo, e segundo porque não tem o entendimento político-filosofante para sentir. Não sabem o que é um idiota. Não querem nenhuma mudança e no seu embrutecimento nada escrevem. Apenas executam as palavras de ordem que buscam encrustar em outros, principalmente em Hugo Chávez. Por isso saltam os enunciados de dor e ressentimento até mesmo aos que simpatizam com as políticas dos idiotas.

DA ITINERÂNCIA DOS IDIOTAS

Hugo Chávez é apontado como ditador. Mas o trio do ressentimento latino não observa que o próprio Teodoro Petkoff, um dos mais conhecido opositores de Chávez, o qual recentemente esteve no Brasil e foi entrevistado no programa da Tv Cultura Roda Viva, deixou os entrevistadores sem pauta quando logo no início do programa afirmou que na Venezuela não existe censura, que a oposição se expressa livremente, assim como o governo é livre para defender-se.

Já Lula, ao lado de Michele Bachelet, do Chile, é colocado como fazendo parte da esquerda vegetariana em relação à esquerda carnívora, de Chávez, Evo, Kichner, Correa. Na verdade, é só mais uma tentativa da direita impotente, aqui representada por este trio, que tenta forjar blocos de poder desejando tirar proveito, criando um enfrentamento entre os idiotas, para poder enfraquecê-los. O que não conseguem, deixando vazar uma desesperada histeria discursiva dos que foram acostumados nos privilégios do poder que acreditavam perpétuo.

E assim o panegírico da mediocridade neoliberal segue debulhando preconceitos e enunciados de violência. Presos nas armadilhas do poder constituído, com a percepção e a sensibilidade embotadas, portanto, distanciados do real, só resta ao trio regressar na quimera, na fantasia. Não sabem, por exemplo, que o regresso não é possível. Não existe volta. “O limite a que devemos chegar é o limite do qual já não podemos voltar”, diz Marcel Proust. A única coisa que pode se repetir é o enunciado. Por isso, enquanto os idiotas democráticos vão ganhando velocidade intensiva de ação, a tríade ressentida neoliberal fica travada, remoendo seu amargor.