Gólgota, de Edward Munch

Tela: Gólgota, de Edward Munch.

O bispo de Barra, na Bahia, Luiz Flávio Cappio, de 61 anos, iniciou outra greve de fome contra as obras de transposição do rio São Francisco. Ele afirma que não houve discussão pública com relação ao projeto, que já vem sendo adiado há mais de dois anos por ingerência de parte da igreja, da qual o bispo faz parte.

Sobre isto, é possível desdobrar três linhas intensivas de análise que o leitor intempestivo não vai ler na mídia oficial:

DO RESSENTIMENTO COMO MODO DE EXISTIR

 O filósofo alemão Nietzsche chamou de ressentimento o modo de existência que surgiu no processo civilizatório da humanidade, marcadamente no Ocidente, e que se caracteriza pela não-reação do sujeito em relação ao que lhe afeta. No Direito Natural, as ofensas e dívidas eram cobradas de acordo com as relações de potência. O direito civil limitou a possibilidade das pessoas agirem a fim de reparar danos e ofensas sofridas, uma vez que a potência agora é coletiva, e que é necessário se adequar a este novo modo de existir, a coletividade. Alguns ramos decadentes passaram a desenvolver uma estética do existir que, ao invés de posicionar-se no mundo e agir nele para modificar sua realidade, preferem ‘internalizar’ o afeto, agredindo a si mesmo e tomando esta dor como princípio do seu existir. A partir daí, só se sentirão ‘vivos’ à medida em que insuflarem em si, tendo o outro como motivo e móbil, sofrimento e dor. A igreja é campeã do ressentimento. A greve de fome é uma estratégia do ressentimento, procurando infligir a si uma dor, e alimentando a idéia inadequada de que o outro é responsável pela sua dor. Apenas pelo sentimento de culpa se pode cair em tal estratagema, que abre mão da sua potência de agir no mundo para sustentar na dor e na irracionalidade o seu ponto de vista. Qual a responsabilidade real do governo em caso de morte ou debilitação do bispo? Nenhuma, a não ser pelo ponto de vista do padecimento de quem está envolvido no mesmo tipo de dor-modo de existir do bispo. Assim, ele age em consonância com a estratégia de dominação do corpo pela Igreja, que tem mais de dois mil anos.

JESUS, FILHO DE MARIA E O ETERNO CRUCIFICADO

Se Cristo desce da cruz, a igreja se extingue. Inclusive as apocalípticas. Foi mantendo Jesus na cruz, como eterno anátema da dor e do sacrifício que Paulo fundou as bases da igreja que matou, saqueou e foi partícipe dos processos de acumulação de capital da Europa e EUA desde sua fundação. O Jesus do bispo Cappio é o Jesus eternamente crucificado de Paulo. Nada a ver com o filho de Maria, que em suas itinerâncias falava de um Deus vivo, presente na existência das pessoas como o fogo da Vida. Não o do ressentimento e o da autocomiseração. O Cristo de Maria, palestino, está mais próximo das células da Teologia da Libertação, de Marx (como mostra a película filosofante “O Evangelho Segundo Mateus, do comunista Pasolini) do que das causas de Bento XVI. Cappio comete um sacrilégio: se compara a cristo, na sua causa. Mas para os que acreditam no Cristo feito humano, que leu a realidade de sua época e expôs filosoficamente as entranhas das relações de dominação, Cappio é apenas mais um dos que foram iludidos por Paulo no caminho para Damasco.

DA PARCERIA SECULAR IGREJA X CORONELISMO

No horizonte do ato do bispo estão quase cinco séculos de parceria entre a igreja e o sistema político-econômico que perdurou no nordeste do Brasil. Importada da Europa, a igreja veio com o claro intuito de converter pela fé a mão-de-obra pagã a fim de usá-la nas lavouras e no trabalho duro em prol do capital da Santa Sé e dos reinos mercantilistas. No Brasil, esta aliança perdurou, a igreja sempre esteve ao lado dos coronéis, com raríssimas exceções, e a literatura de cordel e as obras de escritores nordestinos como Ariano Suassuna estão repletas de referências a esta submissão. Impossibilitado, talvez, de uma discussão no plano científico, social, econômico que rebata os argumentos favoráveis à transposição do São Francisco (que, caso seja bem sucedida, pode acabar com quilômetros de seca e séculos de opressão), resta ao bispo marketeiro e as forças reacionárias que estão com ele apelar para a sedução pela dor. Para isso, procuram, como já exposto aqui, capturar pelo sentimento de culpa a opinião popular, para que, sem uma discussão racional e abrangente do projeto, se possa decidir o que é melhor para as pessoas. A partir delas mesmas.

1 thought on “A FOME DO BISPO

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *