ENCONTROS CASUAIS

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! Era uma vez uma cidade com duas faces: uma, a sua própria realidade, e, outra, a imaginação dos governantes. Por eles era Cidade Sorriso, Paris dos Trópicos, Meu Ciúme, Princesinha do Norte, e outras conceituações que ela não conhecia em si. Certo dia um casal de turistas foi visitá-la. Depois de conhecer o Mercado Municipal, lê os jornais, foram passear de ônibus. Pois, segundo seus avós, para se conhecer uma cidade que se visita, são precisos estes três atos. Na Praça da Matriz, entraram no ônibus cheio até as bordas. Com algumas centenas de metros, o ônibus pou, pou, pou, pregou. Todos desceram e o motorista avisou para não se preocuparem, logo chegaria outro ônibus. Os dois aproveitaram para filmar as ruas e entrevistar pessoas. Chegou o ônibus e lá foram descer em outro prego. E eles sempre filmando e entrevistando as pessoas. No total, foram quinze pregos até chegarem ao ponto final. Voltaram para sua terra, editaram o material, transformando-o em um documentário e venderam para todas companhias de turismo. Resultado: nunca mais ninguém visitou e nem quis morar na cidade Ciúme. Até os governantes e seus vassalos se mandaram para bem longe. Livre, a cidade, com sua própria realidade, foi feliz em sua eternidade.

!! Era uma vez um rapaz que queria ser cantor de rock. Queria tanto que jurou até se pegar com o diabo para realizar seu sonho.. Só que não sabia onde encontrar o tinhoso. Certo dia, porém, lhe falaram de uma igreja de um pobre diabo. Não contou desgraça. Meia noite de sexta-feira, lá estava ele. Fez a promessa e ouviu uma voz dizendo para na próxima sexta, meia-noite, trazer quinhentos tocos e deixar na porta da igreja. No outro dia, acordou cedo inspirado e fez logo vinte rocks bem pauleiras. Um vizinho, que se tomava como o melhor roqueiro do pedaço, quase se mata de inveja. Não se matou, mas queimou a guitarra e foi estudar medicina. Na sexta-feira, levou a grana e a voz pediu três mil para a próxima. No outro dia recebeu vários telefonemas para fazer Shows e apresentações nos melhores programas de TV. Mas toda sexta deixava uma boa grana na porta da igreja. Quando completou quarenta sextas, terminou o pacto. Certa noite, depois de se apresentar no Teatro Amazonas, com estrondoso sucesso, viu um homem alto, fraque preto, barbado, cartola, fumando charuto próximo ao seu carrão. Sentiu um tremor, pensando no final da carreira. Ele se aproximou do homem, que sorria com uns dentes brilhando mais que os refletores, e não conseguiu falar. Então o homem contou toda a história. Ele não era o diabo, era o vigia da casa do lado da igreja e que resolvera ver até onde o diabo ia. Felicíssimo, o roqueiro tascou-lhe um abraço forte acompanhado de beijos agradecidos. Perguntou o que ele tinha feito com o dinheiro, ele respondeu que entrara no ramo da multimídia, estava tendo progresso e estudando Comunicação na UFAM. Se abraçaram felizes e se separaram. Em dois anos, o roqueiro se transformou no Rei do Rock da América Latina. Uma tarde, no ensaio, conversando com um padre, tio do baterista de sua banda, contou a história. Ao que o padre, sorrindo, afirmou ser um caso que mostrava que o diabo mesmo não sendo diabo tinha grandes poderes.

!!! Antes de entrar na sala onde se daria a reunião, contou e percebeu que seria 13º membro. Decidiu não entrar. Pôs a mão no bolso da calça, tirou e fechou o punho. Saiu do prédio. Atravessando a rua um gato preto, vindo da esquerda, passou na sua frente. Tentando se desviar, passou por debaixo de uma escada. Em seguida uma mulher com um vestido marrom, do outro lado, acenou. Desviou o olhar e viu um metaleiro levantando um crucifixo de cabeça pra baixo. Olhou para o céu, fez o sinal da cruz e tropeçou num buraco de obra da prefeitura. Desfalecendo no meio fio, sua mão abre: no rego cai um pé de coelho que desliza suave.

!!!! O que mais apavora na morte é perceber que estivemos alheios à vida. Estava na principal avenida da cidade, que agora detestava. Olhava os carros passarem e era acometido pelas imagens que lhe chegavam. Aproximou-se o primeiro carro, que seria o seu. Viu-se lambendo o saco do patrão: sempre fora lambaio e nunca tivera ganhado sequer uma promoção pequena. Não se jogou. O segundo carro se aproximava. Viu sua mulher transando com o seu vizinho, que sempre tinha se mostrado um amigo para todas as paradas. Não pulou. O terceiro era um caminhão. Perfeito para o seu propósito. Tomou coragem. Se preparou. Quando ia pular ouviu barulho de risadas de crianças. Pulou para trás, seguiu o caminho das crianças e as acompanhou numa partida de peteca.

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