1x1.trans - A UMBANDA UMOLOCÔ DO TERREIRO DO PAI FRANCISCO

No terreiro do Pai Francisco as tradições da Umbanda Umolocô, umbanda pura como chamam, permanece viva. No seu terreiro, lá no Morro da Catita, ele está sempre atento para os rituais, os pontos, as obrigações. De fala fácil, Pai Francisco foi encadeando assuntos da Umbanda com simplicidade e autoridade, e agora postamos aqui uma parte dessa longa entrevista que ele nos concedeu antes do Toque Pra Exu.

Existe muito preconceito, nós da Umbanda cultuamos a Natureza, as matas, as águas, os animais, o céu, as cachoeiras. Se nós não mostrarmos uma coisa boa pro público, o público não vai gostar do que vê dentro de nossa casa. A minha casa, vocês estão vedo, é humilde, mas é uma casa que tem força, eu sou uma pessoa que já estou muitos anos no santo, a minha feitura. Aqui comigo vem vários tipos de gente, vem pai-de-santo, vem zelador de santo. Gosto muito de respeitar todos os convidados que vem em minha casa, porque Deus não quer a gente com arrogância com ninguém. Nós mesmos que fazemos a nossa arrogância com as pessoas. Mas tem pessoas que não querem fazer as coisas direito, cultuar o santo direito, os fundamentos verdadeiros. Aí começa a aparecer aquelas coisas ruins dentro da nossa Umbanda. Uns já enganam os outros; o outro vai e gasta aquele monte de dinheiro e não acontece nada. Minha nação é Umolocô. Eu trabalho na Umolocô, trabalho na Umbanda e na Mina, e sei um pouco de Candomblé. Agora magia negra, essas coisas, aí já não é comigo, eu não vou mentir. Esses anos todos eu trabalho, estou muito feliz, meu santo me deu tudo o que eu queria, que eu não quero riqueza, pisar em cima das pessoas, eu quero ter o que comer, ter o que dar para as outras pessoas, porque tem muita gente que passa fome. Aqui quando tem festa dá muita gente. Hoje é um toque pra Exu e Pombogiras. Muitas vezes as pessoas chamam de diabo, de demônio, mas nós não trabalhamos com demônios. Nós trabalhamos com entidades de luz, só que se mexer com eles, eles têm poder.

DOS TIPOS DE TRABALHO

Aqui eu não faço trabalho pra matar ninguém, pra quebrar a perna de ninguém, não faço trabalho pra botar bicho em ninguém. Aqui eu tiro muito é coisa ruim de cima das pessoas, minhas entidades. O pessoal vem com bicho na garganta, pecador vem com bicho no estômago, é na perna, coisa horrível; meu Preto Velho já tratou de uma senhora que veio com um bicho na vagina, a mulher gritava de dor, tratou aqui e ficou boa. Aqui eu faço santo, eu tiro ebó das pessoas, às vezes a pessoa está caída, não tem pra onde correr. Chega gente enfeitiçada, o Preto Velho trabalha, a pessoa fica boa. Então isso tudo é muito gratificante pra mim e pra ele, porque eles vem em cima da minha coroa, da minha matéria e fazem tudo isso com carinho, sempre tratando as pessoas direito. Já veio gente oferecendo muito dinheiro pra minha entidade fazer trabalho pra quebrar perna, pra botar bicho dentro da barriga pra matar os outros, pra destruir famílias. Eu disse não, meu amor, esses trabalhos eu não faço. Eu só faço cura, santo, e trabalhos pra pessoa que está desempregada, pra amor, mas esses tipos de trabalho pra maldade eu não faço. Sabe porque não faço, meu amor, é porque se o orixá faz a maldade, daqui um tempo a maldade vem em cima de mim, daí eu vou ficar doente, com problemas, eu vou ter de gastar muito dinheiro pra tirar as quizilas, as quiumbas de cima de mim. Eu chego, converso, meu amor, não faça isso não. Eu digo vá numa igreja, qualquer denominação, porque eu não tenho preconceito nem contra evangélico nem nada. Os evangélicos gostam muito de meter o pau na gente, mas eles pra lá e eu pra cá, só quero é que eles não mexam comigo. Então eu falo, não faça isso, aí às vezes a pessoa sai daqui com raiva. Mas eu não faço, porque eu sei que Oxalá é um homem muito simples, se ele tiver um pão, ele reparte no meio. No tempo que ele andava no mundo, ele dava às vezes o pão pros seus fiéis e ficava com fome. Mas ele se alimentava do Espírito Santo, porque Deus estava lá em cima, então Ele dava o pão aqui na terra. Por que o ser humano pega montes de dinheiro pra acabar com a vida dos outros, será que ele não pensa que depois vem pra cima de si. Depois, oh!, meu Deus! Deus não castiga ninguém. Nós mesmos que nos castigamos. Nós que fazemos coisas erradas.

ORIGEM DA UMBANDA

A Umbanda surgiu há muitos anos atrás, foi fundada no Rio de Janeiro. Eram os negros que cultivavam, porque o Candomblé veio da Umbanda. Tinha aqueles Pretos Velhos, que hoje em dia ninguém dá mais valor, que é o orixá que até com o santo maior ele se comunica, até com Deus se for possível, porque ele não tem maldade dentro do coração dele. Daí da Umbanda veio o Candomblé, veio Umolocô, veio o Jejo, Mina Nagô, veio Magia Negra. A Umbanda é uma coisa simples, os cabocos, os pretos velhos trabalham com folhas, com ervas da mata, eles tinham as mirongas deles, tinham as feitiçarias deles, mas sempre ajudando o próximo, uma coisa muito antiga, uma coisa muito bonita. Muitos chamam de casa de “macumba”. O nome não é esse, macumba é uma árvore que há muitos anos a Umbanda era cultuada no pé dessa árvore. Como os negros cultuavam no pé dessa árvore, botavam tambor, vinham as mulheres com aquelas baianas bonitas.

UMBANDA E CANDOMBLÉ

Há muita diferença entre a Umbanda e o Candomblé. Começa pelo amancio, o médium joga os búzios pra saber qual é seu santo, depois ele é catulado, na Umbanda catulado é uma feitura, raspa a cabeça, faz um cortezinho, no Candomblé não, é feita uma feitura completa, sete cortes em várias partes, até na língua. Outra coisa é que no Candomblé não vira caboco, só caboco de nação. Aqui não, cultua-se o Preto Velho, que as pessoas não querem mais cultuar, o Preto Velho é o poder e as pessoas não sabem, vira caboco de água, caboco de mata, caboco da cachoeira, caboco do toco, da estrada, Jurema, cabocos que estão todos em extinção, porque as pessoas não cuidam direito, aí eles começam a se afastar, cabocos velhos como Seu Ubirajara, Seu José Tupinambá, Seu Rompe Mata, Seu Sete Flechas, Seu Sete Estrelas, Seu Estrela D´Alva. Tem médium que quando entra no santo pensa que aquilo é uma brincadeira.
1x1.trans - A UMBANDA UMOLOCÔ DO TERREIRO DO PAI FRANCISCO

A DESCOBERTA DA MEDIUNIDADE

O médium desde pequeno ele já traz uma sina, ele começa a ter visões, ele começa a ver as coisas, ele começa a passar mal, ele desmaia na escola, dentro de casa, aí levam ao médico e ele não sabe o que é, porque quando o orixá vem na gente, a gente fica assim (minha mão não está gelada?). Quando o orixá vem na gente ele abaixa a nossa pressão. Então já não é a gente, já é ele que está ali manifestado. Então a criança começa a ter problema, por volta dos 8 anos, o máximo é 10 anos pra cair no santo, aí tem o grau 1, grau 2, estes não viram com a entidade, só o 4, o 5, o 6, o 7, o 10 e o 15, que tem a coroa aberta, que é esse fundo no meio da cabeça, que é o ori da pessoa, onde a gente faz todas as obrigações é em cima da nossa cabeça, pra que fortaleça o nosso corpo, porque o orixá já é fortalecido. Aí quando a criança passa mal, muita gente acha que é loucura, doidice, aí leva para uma igreja, o pastor puxa o cabelo, taca a cabeça na parede, e não é nada disso, não tá vendo que aquilo é um problema espiritual. Problema espiritual tem de ser resolvido com outro espiritual, tem de levar num terreiro, num barracão, lá a entidade vai saber olhar, quando ela olha no rosto da pessoa ela sabe. Então o pai-de-santo vai dizer que esse rapaz é médium, o grau é esse. Tem que cuidar do santo dele, porque quando a pessoa, a criança começa dar estes desmaios, não é o santo que está fazendo isso, são as coisas ruins do tempo que envolvem aquela pessoa, como ele tem a coroa aberta, nós temos o poder de receber tudo, meu amor. Aí quando nosso santo não é cuidado, aí nossa vida cai, nós não conseguimos amor, trabalho, não conseguimos descansar, ter paz, corre pra ali, pra ali, mas não dá certo, só vai dar certo quando fizer aquilo que tem de ser feito.

AUSÊNCIA DE FEDERAÇÃO

Tem uma federação, mas ela não tem advogado, não tem recursos. Por exemplo, eu vou passando bem ali na rua, aí uma pessoa tem raiva mim e diz: “Ei macumbeiro fuleiro”. É uma calúnia e difamação, porque isso que eu estou fazendo é uma profissão como qualquer outra, só porque outros trabalham com enxada, com pá, na caneta, nós trabalhamos com o espiritismo, com as entidades. É uma profissão, porque nós trabalhamos pro público. Atiram pedra na gente, se você andar com a roupa, é até arriscado baterem na pessoa. Estão agredindo a natureza da gente. Não tem uma federação pra chegar e dizer: “Tem o direito de fulano de tal, eu ia passando na rua e ele me difamou.

MARMOTAGENS NO TERREIRO E NA IGREJA

Tem muitas igrejas que em vez de abrirem a bíblia e dizerem como a pessoa tem de se comportar, como a pessoa tem de amar o seu irmão, eles vão chamar é demônio, aí começa a dar ponto de fogo, pegando as nossas coisas pra trabalhar lá, é despacho, cachaça no meio da igreja pro pessoal passar por cima, enxofre, inventam, pegam um óleo ungido, compram lá no Centro, e dizem que é lá do Egito pra ungir as pessoas, pra enganar, e a gente não faz isso. Tem muito umbandista que engana. Deveria ter uma federação para combater essas marmotagens, tem gente usando o nome da entidade, fica morto de bêbado. Meu filho, quando a entidade vem na coroa da pessoa, ela toma a noite todinha, quando ela sobe, você não sente nem o cheiro da bebida, porque ela leva o álcool e fica a água pra gente urinar. Então, não está com o santo, está fingindo, dá-se o nome de equê, veste aquela roupa toda pra se amostrar e não tá com nada. Tá ocorrendo muito isso aqui em Manaus. É pombogira caindo pelo chão, que não é pombogira, é caboco morto de bêbado. Tudo isso está denegrindo a nossa imagem.

UMA ÉTICA UMBANDISTA

Aqui esse barracão é uma escola, a Umbanda é uma escola. Ensina desde a humildade e sabedoria pra fazer as coisas. Mas tem gente que leva muito a pagode, depois vão sofrer as conseqüências. A cabeça de uma pessoa é fina. Você mexer na cabeça de uma pessoa que é médium, se não souber mexer, acaba com a pessoa, destrói a pessoa, porque está fazendo coisa errada. Às vezes a pessoa vai com alguém que engana, cai a perna da pessoa e não tira, às vezes a pessoa é tão inocente, meu filho, quando alguém diz pra ela “eu vou tirar”, a pessoa acredita. A pessoa está frágil, porque essas coisas de feitiço dói, bichos dentro das pessoas, escorre aquele pus, aquela baba, como a pessoa quer ser é curada, então ela vai dando dinheiro, vai dando, vai dando. Aí quando já ganhou muito dinheiro o covarde despacha, “olha, não tem mais jeito”. Só não tem mais jeito quando a feitiçaria é de muito tempo, que ela já está enraizada dentro da pessoa, como aqui veio uma senhora, já faz muito tempo, botaram duas aranhas no corpo dela, as bichas andavam dentro do corpo da mulher, quando a gente pegava na costa da mulher, ela virava um bicho, se transformava, só que ela já estava com 10 anos. Eu botava um alguidar, eu dei um remédio de ervas, ela botava aquela baba com um monte de ova, chega me dava pena. Aí meu Preto Velho chegou com ela e disse “minha filha, não tem mais jeito”, tá enraizada a sua doença. Então eu não vou mexer com a senhora, porque a senhora vai morrer nas minhas mãos e sua família vai dizer que fui eu que lhe matei. Porque nas famílias, se tem alguém que não gosta da Umbanda, diz logo “ah!, foi o macumbeiro que matou”. Não é. É a mesma coisa de a pessoa ir pro médico, Ave Maria, com um câncer que já está enraizado, o médico vai despachar, porque não tem mais jeito. Como é que ele vai cuidar de uma doença que já está enraizada, já tomou conta de partes do corpo? Não tem condições. A mesma coisa é nossa espiritualidade, se é 1 ano, 2, 3, 4, tem jeito. Ela vinha a 10 anos botando essa baba, meu Preto Velho despachou, ela chorava, “ai, eu quero ficar boa”. Aí eu dizia, “mas, minha filha, não tem jeito; se eu for mexer dentro da senhora pra tirar essas aranhas, quando você começar a botar, você vai morrer”. Ela tava fraca, fraca, fraca. Eu despachei ela terça-feira, quando foi sexta-feira a pobre da velhinha morreu. Olha aí se eu tivesse enganado a mulher, se eu não tivesse dito a verdade, tivesse pedido dinheiro, porque a mulher era rica. A filha dela disse “eu quero que a sua entidade bote a minha mãe boa, não importa o dinheiro que eu vou lhe dar”. Eu disse “não, minha filha, eu trabalho com meu suor, não trabalho por causa do dinheiro; me desculpe, mas sua mãe não tem mais jeito”. Por que que não falam a verdade? Não custa nada dar a mão ao ser humano, porque só o que muda em nós é o pensamento, porque você pensa de um jeito, eu penso de outro, mas muitas vezes nossos pensamentos se juntando, a humanidade faz coisas boas.

1x1.trans - A UMBANDA UMOLOCÔ DO TERREIRO DO PAI FRANCISCO

Deixamos aqui essa foto de uma senhora que tocou um xeco-xeco durante todo o toque do sábado passado, a qual quando perguntamos o seu cargo, ela disse não ter nenhum, que ia somente para animar a festa. E como animou!