PELO 1º ENCONTRO DE BLOGUEIROS PROGRESSISTAS

Não se pode negar que o advento da internet trouxe uma maior democratização da informação e a possibilidade da formação de uma mídia alternativa diante da grande mídia sequelada aliada à canhestra direita brasileira. Agora todo e qualquer cidadão pode entrar nessa rede e participar democraticamente do debate público. Alguns jornalistas que não tinham nem queriam lugar nas grandes redes entraram no filão dos blogs alternativos, que teve como um de seus fundadores o íntegro jornalista Luiz Nassif.

Antes, a Rede Globo, a Folha de São Paulo, o Estadão, Veja, IstoÉ e demais cópias fajutas nos estados poderiam deslanchar sua verve falseada de forma tirânica, contanto no máximo com a resistência fundamental de uma Caros Amigos e de uma Carta Capital.

Na última década, a grande mídia, conhecida, em sua empáfia, como 4º poder, passou a sofrer revezes devido à rápida proliferação de uma rede midiática alternativa formada por pequenos pontos em linha intensiva de atuação para o qual os velhos padrões de fabricação de verdades escamoteadas da grande mídia já não se podiam manter, modificando não somente as mídias, mas a própria realidade da política brasileira. Nas palavras de Paulo Henrique Amorim: “Antigamente, os tucanos de São Paulo davam três telefonemas e controlavam o Brasil. Eles ligavam para o Doutor Roberto (Globo), o Ruy Mesquita (O Estado de S. Paulo) e o Seu Frias (Folha de S. Paulo) e governavam a opinião pública brasileira. O que desmontou essa estratégia concentrada em três telefonemas foi a blogosfera.”

UMA EXPERIÊNCIA INTEMPESTIVA

Não que a grande mídia deixasse de existir e exercer poder de controle, mas é que uma nova forma, um novo medium passou a se sobrepor nos processos de comunicação. Alguns conhecidos jornalistas, como o citado Paulo Henrique Amorim, juntamente com Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna, que não se adaptaram nem aceitaram as tramas da rede Globo, perceberam essa mudança e também migraram para esta Ágora cibernética.

De seu lado, os grandes jornais e revistas, e até a televisão, tiveram que migrar para versão on-line, tendo que disponibilizar cada vez mais conteúdos gratuitos para se adaptar à velocidade de informação repassada por zilhões de blogs, que todos os dias têm suplantado as técnicas retrógradas dessas mídias sequeladas, formando uma rede de resistência que passa pela “criação de novos circuitos de cooperação e colaboração” que se espalham por todos os lugares, “facultando uma quantidade infinita de encontros” (Toni Negri e Michael Hardt).

Foi a incapacidade de compreender esta mudança, e sua impotência diante dela, que levou Serra a dizer no final da semana que passou que o governo financia alguns “blogs sujos”, quando a maior parte dos blogs não aufere – e provavelmente nem pretenda – nenhum lucro financeiro com sua atividade blogueira. Os blogs são uma espécie de atualização das guerrilhas que lutavam contra as ditaduras. Na chamada transição democrática, predominou a corrupção das oligarquias, mas agora elas vão sendo desbaratadas pelas novas armas, que passam pela inteligência na produção das informações.

LIBERDADE DE EXPRESSÃO DESEJANTE

O caso é que nunca houve uma mídia imparcial no Brasil. E agora imparcialidade é o que não interessa mais a ninguém, mas os blogs são de longe os meios que menos escamoteiam notícias e acontecimentos. Não há nem comparação com as ‘barrigadas’ da mídia sequelada. Somos um exército de Brancaleone contra um exército imperial corrompido, que rui por causa de sua corrupção diante do humor e da ironia desmedida.

Por acusações como a de Serra, Diogo Mainardi acabou por fugir para a Itália por tantos processos que responde por calúnia, injúria e difamação. Os blogueiros quase não correm esse risco por dois motivos. Primeiro porque as formas jurídicas ainda não conseguiram reger pelo estatuto da Lei o Cybermundo. E, segundo, principalmente, porque as postagens dos blogs se baseiam eventos locais comprováveis ou na desconstrução/descodificação de notícias veiculadas na grande mídia.

É claro que o poder constituído sempre tentará colocar seu tentáculos na captura da virtualização, de modo a impedir sua atualização (Deleuze e Guattari) como no caso da Lei Azeredo, conhecida como AI-5 Digital. Mas é difícil que tais mecanismos consigam enquadrar os blogueiros devido ao movimento continuum de uma resistência indevassável e incapturável, que não aparece como uma doação, mas se constrói e se renova constantemente na navegação insondável.

FINALMENTE OPINIÃO PÚBLICA?!

Outro fator muito deferente das velhas mídias é o papel do receptor. A regra agora é a da interação. Portanto, não existe mais o receptor passivo. Nos jornais, revistas e TV – “feita por você” -, mesmo que nos indignasse um artigo, o máximo que faríamos era discutir com outros nosso desacordo, mas havia uma distância muito grande da emissão do discurso.

Quando no início de 2007, o filósofo Renato Janine Ribeiro, comovido, escreveu um artigo que deixava passar laivos de favorecimento para a “pena de morte”, milhares de e-mails lhe foram imediatamente enviados, centenas de blogs analisaram a conduta do filósofo, que teve que responder durante semanas por seu texto.

Ou seja, já não era possível esconder-se por detrás de uma intelignstzia privilegiada. Hoje, seja como mera doxa ou como atributo da razão, cada pessoa quer colocar a sua opinião. Devido a essa possibilidade de interação, há quem diga que atualmente no Brasil os blogs passaram a nortear a formação da opinião pública; ou seja, os comentários são, na verdade, enunciantes.

Se isso ocorre, é de uma outra ordem. Não é mais a opinião pública nem no sentido positivista de vontade do povo no governo nem no sentido de sondagem manipulável e fabricada. “Em vez de sujeito democrático, a opinião pública é um campo de conflito definido por relações de poder nas quais podemos e devemos intervir politicamente, através da comunicação, da produção cultural e de todas as outras formas de produção biopolítica (Negri e Hardt).”

O bom disso é que a multidão põe em crise o arremedo de democracia que é a famigerada democracia representativa, fazendo visível sua autonomia e seu desejo político, podendo permitir a consolidação de uma nova forma de democracia.

POR UMA DEMOCRACIA EM REDE

O que não se pode deixar de ver no 1º Encontro de Blogueiros Progressistas foi a polifonia das mais de três centenas de pessoas ali reunidas. Diferentes culturas, raças, formas de trabalho, cosmovisão, desejos, mas todas com o desafio de se comunicar e agir em comum enquanto se mantém internamente diferentes.

Como diz Luiz Nassif: “Nos últimos anos, montamos uma rede de grande impacto para impedir as maluquices da direita e o processo avassalador da mídia. Essa guerra acabou. Agora é preciso enfrentar as divergências entre nós mesmos – entre os blogueiros dessa frente. É uma oportunidade para mostrar que a blogosfera comporta essa democracia.”

O caso é que há singularidades; mas não, identidades. Isso não permite o endurecimento em um centro propulsor ou autoritário, fazendo da blogosfera um interessante espaço de lutas que torna observável o que temos constatado na efetivação de dois fenômenos:

1) Inesperadamente, em qualquer lugar pode surgir um foco de resistência e luta. Essas questões locais, ao contrário das revoluções tradicionais, às vezes podem até não se expandir horizontalmente, mas sobem verticalmente e se lançam para inúmeros pontos variados. É assim que um caso de homofobia em uma escola de Manaus de repente desperta o interesse de grupos na Austrália, por exemplo.

2) Em um instante, inúmeros blogs – às vezes com discordâncias em certos pontos -, numa rede disseminada, podem atacar no mesmo ponto com um objetivo comum para em seguida separar-se ou formar novas redes. É o que Negri e Hardt chamam de “inteligência de enxame”.

Esses encontros disseminados são a oportunidade para a fundação de um projeto político na blogosfera – não centralizado e não hierárquico -, que esteja em consonância com as novas formas de produção, que esteja integrada, para além da mídia, com a concretização da plenitude da vida. Ou seja, ao mesmo tempo que se luta contra o neoliberalismo, contra a corrupção da classe política, contra a falseação judiciária, vai-se formando em rede a prática ativa fundadora de uma existência melhor, de um Brasil melhor, de um outro mundo possível.