Era uma vez uma cidade habitada por um povo cabocão que, através de suas experiências naturais, construiu uma índole pacata e amiga. Vivendo feliz, com seus corpos histórico, arquitetônico, econômico, manifestados em suas ruas, calçadas e sobrados. Todavia, esse povo, que nunca precisou de herói, pois aprenderá com Brecht que o povo que precisa de herói é um povo pobre, e com Baudrillard que “o herói não “libera” os acontecimentos nem as forças históricas, e nem constrói uma história”. Só “encadeia as figuras do mito e da lenda”, não sabia se defender.

Eis que um dia, das águas misteriosas de um rio, no meio da floresta amazonense, emergiu uma criança recebida por uma voz a qual lhe disse: “És o guerreiro esperado para a nobre missão de guiar teu povo! Parte agora, herói!”. Sendo lenda, simulacro caricato do Moisés do Nilo, foi fácil para a criança recém nascida, sem ter sequer entrado no estágio da pré-linguagem, entender, entre o rumor do rio, os cantos dos pássaros e o farfalhar dos galhos das árvores, a profecia. Assim, não contou desgraça, embrenhou-se na floresta rumo à cidade e em menos de meio segundo, o tempo necessário para tornar-se adulto, mas permanecendo com a consciência lendária, chegou. Vendo o povo cabocão, falou aos seus botões: “Vai ser fácil comandar esse povo, mas preciso inventar algo que transforme a cidade!”. Então, como era uma lenda, não lera Marx, inventou um truque chamado por ele de “trabalho”. Nisso, descobriu, vivendo no subterrâneo da cidade, uma gente estranha, pálida, ambiciosa, quase sem vida, auto-alcunhada de Sonhadelos. Juntou-se a essa gente, e fez da cidade o que chamou de grande revolução. Depois do “trabalho” executado, como um deus lendário, disse que precisava descansar e deixou a obscura gente tomando conta da cidade.

Porém, em uma de suas caminhadas, Zeus chegou a Manaus e tomou um puta susto com o que viu. Chamou o titã Prometeu e passou-lhe uma senhora carraspana acompanhada de duas cacholetas e foi mandando bronca: “Porra, Prometeu, tu me prometeste que esse povo estava bem servido com o fogo da sabedoria e da arte, e olha como Manaus se encontra!”. Prometeu, defendendo-se, disse: “Mestre Zeus, eu dei o que roubei de Hefaistos e Atena, para mim era o que a moçada precisava”. Zeus foi ao delírio: “Mil vezes porra, Prometeu! Que adianta dar sabedoria ao povo se ele não tem o mais importante, o que os une em potência contra os inimigos e cria a democracia que é a Retórica, o Discurso, seu porra! Foi por isso que a demagogia deitou e rolou em Manaus. Chama o Hermes, cacete!”. Hermes chegou e Zeus mandou ele entregar a Retórica aos manauaras.

Então, de posse da Retórica, unidos democraticamente, o povo inventou a política, o trabalho-real e começou resgatar a cidade. Um dia, depois de seu longo descanso, a lenda voltou. O que viu lhe deixou tresloucada: a cidade tinha recuperado sua identidade cabocal. Entrara em sua fase de prosperidade, com o povo novamente feliz. Ofendido, procurou reunir o que restou da gente obscura e saiu gritando: “Mãos à obra! O ‘trabalho’ está de volta!”. Que “trabalho” que nada. O povo foi a luta e o mandou de volta para as profundezas do rio. Contam até que em noite de enchentes ouve-se um lamento: “Pobre do povo que não tem herói!”. E distante, um pássaro vermelho, responder: “Vai estudar, lamento! ‘Pobre do povo que precisa de herói’.

Quanto ao povo, não foi feliz para sempre, porque sempre é lenda, mas continuamente produziu o real social: a democracia.